Qua, 06 de outubro de 2021, 09:11

Estudos avaliam os efeitos da respiração enriquecida de oxigênio e o uso de anti-inflamatórios durante treinamentos de corrida
Trabalhos foram desenvolvidos por integrantes do Clube de Corrida da UFS, do Departamento de Educação Física
Clube de Corrida, projeto de extensão criado em 2015, estimula a prática de atividades físicas e colabora na divulgação da modalidade esportiva. (fotos: arquivo pessoal)
Clube de Corrida, projeto de extensão criado em 2015, estimula a prática de atividades físicas e colabora na divulgação da modalidade esportiva. (fotos: arquivo pessoal)

Desde 2015, a Universidade Federal de Sergipe oferta para a comunidade universitária e externa vagas no Clube de Corrida. O projeto de extensão, vinculado ao Departamento de Educação Física (DEF), tem como principais objetivos o estímulo à prática de atividades físicas e a divulgação da modalidade esportiva. Atualmente, em função da pandemia de covid-19, as atividades estão sendo desenvolvidas remotamente.

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O projeto funciona também como um “laboratório” com ações vinculadas ao Grupo de Estudos e Pesquisas da Performance, Esporte, Paradesporto e Saúde (Gepes), cujos integrantes englobam professores e estudantes.

Dentre os temas estudados, dois considerados polêmicos foram investigados recentemente: a efetividade da utilização da respiração enriquecida de oxigênio (hiperóxia) e o uso de anti-inflamatórios durante treinamentos de corrida como forma de alcançar um melhor desempenho. Práticas que não são proibidas pela Agência Mundial de Antidoping (Wada, em inglês), mas trazem à tona a questão da eficácia, segurança e ética.


Raphael Fabrício de Souza, professor do Departamento de Educação Física, participa dos estudos desenvolvidos pelo Clube de Corrida.  (foto: Adilson Andrade/Ascom UFS)
Raphael Fabrício de Souza, professor do Departamento de Educação Física, participa dos estudos desenvolvidos pelo Clube de Corrida. (foto: Adilson Andrade/Ascom UFS)

Os resultados obtidos foram apresentados em dois artigos científicos. O primeiro estudo intitula-se “The acute effect of hyperoxia on Onset of Blood Lactate Accumulation (Obla) and performance in female runners during the maximal treadmill test” (O efeito agudo da hiperóxia no início da acumulação de lactato sanguíneo (Obla) e no desempenho em corredores femininos durante o teste máximo em esteira) e o segundo “Effect of ibuprofen on muscle, hematological and renal function, hydric balance, pain, and performance during intense long-distance running” (Efeito do ibuprofeno no músculo, função hematológica e renal, equilíbrio hídrico, dor e desempenho durante corrida intensa de longa distância).

Respiração enriquecida de oxigênio: alguns dados


Durante a pesquisa, mulheres praticaram corrida em uma esteira. Em um primeiro momento, utilizando a recuperação com oxigênio e posteriormente sem o uso do oxigênio extra
Durante a pesquisa, mulheres praticaram corrida em uma esteira. Em um primeiro momento, utilizando a recuperação com oxigênio e posteriormente sem o uso do oxigênio extra

Nesse trabalho, explicou o professor Raphael Fabrício de Souza, o interesse de estudar o assunto partiu da observação de que gradativamente as pessoas estão utilizando o oxigênio como uma estratégia de melhorar os seus desempenhos durante a corrida, mesmo ainda havendo dúvidas se de fato a utilização do recurso “extra” traz efetivos resultados.

Em busca de dados para obter esta resposta, os pesquisadores reuniram grupo composto unicamente por mulheres que foi levado para praticar corrida em uma esteira. Em um primeiro momento, elas treinaram utilizando a recuperação com oxigênio e posteriormente este mesmo grupo efetuou a corrida sem o uso do oxigênio extra.

A principal evidência encontrada durante a pesquisa foi a menor concentração de lactato sanguíneo após a inalação do oxigênio extra e, por outro lado, as corredoras que não fizeram uso da hiperóxia apresentaram um maior estresse metabólico e tiveram um desempenho inferior no teste de esforço máximo de corrida realizado na esteira. Uma evidência que aponta que o oxigênio pode melhorar o desempenho durante a prática de corrida.


Estudo foi realizado durante a prova intitulada “Desafio 42k”, em Itabaiana, em 2016. Houve coleta de amostras sanguíneas antes e após o término da prova.
Estudo foi realizado durante a prova intitulada “Desafio 42k”, em Itabaiana, em 2016. Houve coleta de amostras sanguíneas antes e após o término da prova.

Entretanto, os pesquisadores também detectaram que o excesso de oxigênio pode vir a acarretar malefícios, a depender da duração de aplicação, em virtude do aumento do estresse oxidativo e o consequente dano celular devido à formação de espécies reativas de oxigênio. O assunto segue sendo investigado.

“Sabemos que o sucesso atlético depende das alterações cardiovasculares e da extração de oxigênio e que o desempenho de exercício aeróbio parece ser amplamente mediado por mudanças no teor de oxigênio arterial e subsequente suprimento de oxigênio. Embora evidenciamos que correr sob condições de hiperóxia melhore o desempenho e aumente tolerância à carga de trabalho, gostaríamos de aprofundar a diversidade de metodologias de treinamento (intervalos, contínuos e mistos, nas condições de hiperóxia) e também avaliar outras frações de oxigênio inspirado e duração da exposição ao treinamento”, detalha o pesquisador.

Uso de anti-inflamatório não trouxe melhor desempenho durante a corrida


Clube de Corrida funciona como um “laboratório” com ações vinculadas ao Grupo de Estudos e Pesquisas da Performance, Esporte, Paradesporto e Saúde (Gepes). (foto: Caio Ribeiro/Decav UFS)
Clube de Corrida funciona como um “laboratório” com ações vinculadas ao Grupo de Estudos e Pesquisas da Performance, Esporte, Paradesporto e Saúde (Gepes). (foto: Caio Ribeiro/Decav UFS)

A segunda pesquisa desenvolvida a partir do Clube de Corrida surge pela constatação de que muitos corredores estavam adotando a prática de levarem anti-inflamatório para utilização durante provas de longa distância (acima de 20km), especialmente no caso de maratonas ou ultras corridas, cujas distâncias percorridas ultrapassam os 42km.

“O pessoal já levava no bolso o anti-inflamatório, já sabendo que a musculatura iria responder com dor e, antecipando a isso, no meio da corrida já tomava o medicamento. Qual o grande problema? Estão tomando um medicamento sem receita, de forma incorreta”, afirma o professor Raphael.

Detectado esse problema, os pesquisadores resolveram ir a campo e comparar o grupo que utilizou anti-inflamatório e aquele que não fez uso do medicamento com o objetivo de avaliar se houve melhora de desempenho durante a corrida. Neste estudo, os integrantes do Clube de Corrida realizaram uma grande força-tarefa no dia da competição e coletaram amostras sanguíneas antes e após o término da prova.


Foram avaliadas não apenas variáveis fisiológicas relacionadas ao dano muscular, renal e hepático, mas também aquelas relacionadas ao estado de hidratação, performance e dor dos corredores. O estudo foi realizado durante a prova intitulada “Desafio 42k”, em Itabaiana, em 2016.

O resultado mostrou que ocorreu a diminuição da dor durante a prática esportiva, mas o resultado esperado de melhorar de desempenho não foi alcançado, além de ser uma prática que pode trazer riscos para saúde. “Ou seja, o que os atletas estão fazendo? Estão mascarando aquilo que o corpo está respondendo. A questão é que o corpo está avisando: você está correndo, começando a ter dor e sua musculatura está te avisando que pode lesionar, mas se você mascarar como é que você vai saber a hora de parar?”, alerta o pesquisador.

Orientações para efetiva melhoria de rendimento


Melhores resultados devem ocorrer a partir da periodização, orientação e práticas baseadas em evidências científicas, é o que preza o Clube de Corrida.
Melhores resultados devem ocorrer a partir da periodização, orientação e práticas baseadas em evidências científicas, é o que preza o Clube de Corrida.

Apesar de muitos atletas, em busca de melhor desempenho, optarem pelas soluções rápidas, cuja eficiência ainda não é totalmente comprovada, no Clube de Corrida da UFS um dos principais objetivos é que a conquista de melhores resultados ocorra a partir da periodização, orientação e práticas baseadas em evidências científicas.

Aos participantes do projeto, por exemplo, uma das orientações repassadas pelo professor Raphael é quanto à periodização dos treinos. Ele explica que, em geral, ao iniciar a correr, as pessoas supõem que correr o mais rápido e o mais longe possível é o que trará avanços. A realidade é outra.

“Na verdade, em um treinamento objetivando ganho de performance e menor risco de lesão, a periodização deve ser de forma ondular, precisa haver momentos que você terá mais intensidade, momentos que você têm que de fato descansar, em que vai misturar diferentes níveis de intensidade, que você vai correr mais longe, mais curto, sem interrupções ou em maior intensidade, porém com intervalos recuperativos e toda a periodização elaborada pelo profissional de educação física”, esclarece.


Outro alerta feito pelo educador é quanto ao tipo de calçado selecionado para a realização da prática esportiva. Ele orienta que, por exemplo, ao correr na grama e na areia o impacto é mais absorvido e é recomendado que seja utilizado um tênis com amortecimento próprio para corrida. O item terá o preço mais elevado, mas será fundamental para a preservação do joelho.

“O projeto objetiva ajudar os corredores que muitas vezes desempenham a corrida de forma desorientada. Várias outras questões são relevantes para o corredor conquistar um bom desempenho, como um correto aquecimento, a realização de exercícios de mobilidade e a realização de educativos coordenativos antes do início da prática... Você precisa aprender a correr e de forma leve, mais solto, entender que existem uma série de estratégias que você pode desenvolver com o treinamento supervisionado”, finaliza o professor.

Treino supervisionado garante resultados


Renato Mendes, que é professor de Filosofia da UFS, participa das atividades do Clube de Corrida desde 2018. (foto: Caio Ribeiro/Decav UFS)
Renato Mendes, que é professor de Filosofia da UFS, participa das atividades do Clube de Corrida desde 2018. (foto: Caio Ribeiro/Decav UFS)

Desde 2012, o professor Renato Mendes Rocha, do Departamento de Filosofia, apaixonado por corridas desde a infância, voltou a correr com mais frequência. No período, ele estava iniciando o doutorado em Florianópolis (SC) e percebeu que precisava de uma atividade física para garantir a saúde física e mental.

Professor da UFS desde 2017, ele resolveu participar de uma seleção para ingresso no Clube de Corrida em 2018 e desde então participa das atividades propostas pelo projeto de extensão.

“Correr é um esporte muito simples que demanda principalmente ter a constância nos treinamentos e um acompanhamento na alimentação, que também é importante. Eu procuro ter cuidado, comer alimentos naturais, pouco processados e também tenho feito um trabalho de fortalecimento na academia. Tenho visto que isso é importante para alcançar os resultados que buscamos na corrida”, detalha.

Pesquisadores


Veja as ações do Clube de Corrida no Instagram @clubedecorridaufs_
Veja as ações do Clube de Corrida no Instagram @clubedecorridaufs_

Na pesquisa “O efeito agudo da hiperóxia no início da acumulação de lactato sanguíneo (Obla) e no desempenho em corredores femininos durante o teste máximo em esteira” participaram os seguintes pesquisadores: Thays C Silva, Felipe J Aidar, Aristela de Freitas Zanona, Dihogo Gama Matos, Danielle D Pereira, Paulo Emmanuel Nunes Rezende, Alexandre Reis Pires Ferreira, Heleno Almeida Junior, Jymmys Lopes Dos Santos, Devisson Dos Santos Silva, Felipe Douglas Silva Barbosa, Mabliny Thuany e Raphael F. de Souza.

Os pesquisadores envolvidos no estudo “Efeito do ibuprofeno no músculo, função hematológica e renal, equilíbrio hídrico, dor e desempenho durante corrida intensa de longa distância” foram Raphael Fabricio de Souza, Dihogo Gama de Matos, Alexandre Reis Pires Ferreira, Philip Chilibeck, Natalie de Almeida Barros, Alan Santos Oliveira, Luana Mendonça Cercato, Danielle Soares da Silva e Felipe José Aidar.

Andréa Santiago (TV UFS)

Luiz Amaro (edição)

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Atualizado em: Qui, 07 de outubro de 2021, 13:54
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