Qua, 12 de junho de 2019, 17:13

Infidelidade não é só sobre insatisfações, mas sobre incapacidade de dialogar e outros fatores
A complexidade das práticas de infidelidade foi investigada em pesquisa de mestrado
Foto: Yanalya/Freepik
Foto: Yanalya/Freepik

Contratos são feitos e desfeitos a todo o momento. Hoje, os relacionamentos conjugais duram menos. Em 2017, a pesquisa Estatísticas do Registro Civil, do IBGE, analisou 373 216 divórcios concedidos em 1ª instância ou por escrituras extrajudiciais. A apuração identificou que em 2007 o tempo médio entre a data do casamento e do divórcio era de 17 anos. Dez anos depois, esse tempo reduziu para 14 anos.

Laís Rocha Santos analisou os aspectos relacionados ao fenômeno da infidelidade conjugal, no formato monogâmico, na atualidade. A ideia surgiu quando a pesquisadora havia saído da graduação em Psicologia e atuava em uma clínica. Nesse ambiente, ela percebeu a grande demanda relacionada ao fenômeno.

Essas pessoas que procuravam terapia haviam passado por situações que envolviam a infidelidade. Laís, então, decidiu tratar do assunto no mestrado, pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFS.


Laís Rocha Santos: “Meu intuito com a pesquisa não é estabelecer uma causa para o comportamento infiel, mas levantar fatores que têm relevância” (Fotos: Adilson Andrade – Ascom/UFS).
Laís Rocha Santos: “Meu intuito com a pesquisa não é estabelecer uma causa para o comportamento infiel, mas levantar fatores que têm relevância” (Fotos: Adilson Andrade – Ascom/UFS).

Apesar da dissertação não possuir a intenção de estabelecer o que motiva a infidelidade, algumas questões que aparecem na pesquisa são relevantes para compreensão do fenômeno. “Meu intuito com a pesquisa não é estabelecer uma causa para o comportamento infiel, mas levantar fatores que têm relevância”, salienta a pesquisadora.

Satisfação sexual e conjugal, habilidades sociais conjugais e as atitudes tomadas perante a infidelidade foram os pontos abordados na pesquisa. Dentre os participantes consultados, 53,7% apontaram que conhecem pessoas que possuem uma relação extraconjugal; 62,1 % declararam que sentem vontade de trair; 36,6% pensam que poderiam cometer um ato infiel e 40,3% já foi traído.

A infidelidade complexa

A pesquisa foi realizada através de questionários e entrevistas. Os questionários foram respondidos por 531 pessoas, divididas em quatro grupos: traiu (grupo 1); foi traído (grupo 2); nunca traiu e nunca foi traído (grupo 3) e traiu e foi traído (grupo 4).

Diferentemente dos índices apresentados pelos que disseram nunca ter traído, as pessoas que responderam ter sido infiéis, em sua maioria, disseram estar insatisfeitas sexualmente e conjugalmente. Elas também possuíam uma atitude mais positiva, portanto favorável, à prática da infidelidade. Também apresentavam baixos níveis de habilidades sociais conjugais, ou seja, não sabem lidar com o parceiro(a) no dia-a-dia, resolver problemas e dialogar.

Contudo, a pesquisadora reforça que as questões apresentadas não são determinantes e que a equação é complexa. “Não é só isso. Lidamos com algo muito subjetivo. Dessa maneira, é possível que alguém que esteja satisfeito sexualmente também venha a cometer uma infidelidade”, conta. Porém, as análises do estudo deixam perceptível que a relação entre as variáveis existe e são consideráveis.

Gênero e sexualidade

“Entrevistei uma mulher que estava casada há mais de 20 anos e era traída desde o namoro”. Este relato é o que a pesquisadora utiliza para explicitar como a questão de gênero também têm peculiaridades ao se estudar a infidelidade.

A pesquisa destacou as condições sociais em que o fenômeno está inserido. Desse modo, constatou-se que há diferenças, referentes ao gênero, na concepção do comportamento infiel na sociedade.

“No sistema patriarcal, a dominação e opressão se dão de diversas formas perante a mulher, mas faz-se aqui um destaque aos âmbitos afetivo e sexual. A legitimação do comportamento infiel masculino, diante da liberdade que o patriarcado lhe proporciona, garante a repetição de tal comportamento”, aponta o trabalho.


"É como se esses casais replicassem o modelo monogâmico heterossexual, com benefícios e desvantagens”, conta Elder Cerqueira.
"É como se esses casais replicassem o modelo monogâmico heterossexual, com benefícios e desvantagens”, conta Elder Cerqueira.

A ‘Era Digital’

A modernidade chegou e com ela surgiram outras questões que abrem novos ambientes para a pesquisa. Por isso, Laís pontua que o raciocínio do sistema liberal e capitalista, aliada à tecnologia e informação, dão formas às relações atualmente.

Uma observação levantada pela pesquisadora é: o que agrada é mantido, o que não mais satisfaz é descartado, o fenômeno não ficou na materialidade, ele adentrou os relacionamentos.

A mestra acredita que a “Era Digital” potencializou a infidelidade. “As respostas dos participantes da pesquisa apontam isso. Você não precisa necessariamente estar presente fisicamente. Para ser infiel não é necessário estar em um relacionamento com uma terceira pessoa, pode ser algo casual. E os aplicativos de relacionamento, por exemplo, acabam facilitando a casualidade”, afirma a pesquisadora.

Elder Cerqueira levanta outra questão sobre do assunto. Ele diz que há outros fatores que implicam no fenômeno que devem ser levados em conta.

“Não é só sobre o fato dos aplicativos, mas, também, pela maneira como as pessoas têm encarado as relações e laços afetivos. Não é por possuir um aplicativo que isso vai me fazer buscar outra pessoa. Talvez [com a] a ideia do mundo fluido e fácil, as coisas, descartáveis e rápidas, também contaminaram os relacionamentos. Não é mais uma grande tragédia acabar um relacionamento”, conclui.

Saiba mais

Para saber mais sobre o trabalho da pesquisadora, acesse o Repositório Institucional clicando aqui.

Paulo Marques (bolsista)
Marcilio Costa
comunica@ufs.br


Atualizado em: Qua, 12 de junho de 2019, 17:32
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