Ter, 12 de março de 2019, 17:02

Objetos manipuláveis auxiliam crianças com Down na aprendizagem de matemática
Pesquisa de mestrado aborda evolução de alunos com a síndrome no estudo da disciplina

A matemática é uma das matérias de mais difícil aprendizagem para crianças com Síndrome de Down – nesta condição, o raciocínio lógico é afetado diretamente. No entanto, pesquisas feitas no Brasil e no exterior demonstram que elas detêm algumas potencialidades que, se trabalhadas adequadamente desde os primeiros dias de vida, lhes permitem conseguir graus inesperados de desenvolvimento, autonomia e participação na sociedade.

Com base nisso, Terezinha Maria dos Santos, pesquisadora da área desde 2000, decidiu se aprofundar no ensino da matemática para alunos com Down, em seu mestrado, no Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática (NPGECIMA), na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

A motivação para o tema nasceu de um laço familiar. “Eu tenho uma sobrinha com Síndrome de Down que, atualmente, está com 34 anos. Ela estudou até o ‘fundamental dois’ [que corresponde à segunda parte do ensino fundamental] e se desenvolveu muito bem. Então, minha pesquisa começou com esse questionamento: ‘se ela se desenvolveu tão bem, porque diversos outros não têm esse sucesso?’”, explica.


“O objetivo da minha dissertação é observar a trajetória dos alunos com Síndrome de Down na aprendizagem de matemática”, conta Terezinha Maria dos Santos (Fotos: Adilson Andrade/Ascom UFS).
“O objetivo da minha dissertação é observar a trajetória dos alunos com Síndrome de Down na aprendizagem de matemática”, conta Terezinha Maria dos Santos (Fotos: Adilson Andrade/Ascom UFS).

Apesar do assunto já ter sido abordado em algumas pesquisas no Brasil, Terezinha é pioneira em Sergipe. A orientadora, professora Verônica dos Reis Mariano Souza, desmente perspectivas equivocadas que sugerem que essas crianças não conseguem desenvolver o próprio raciocínio: “O desenvolvimento de qualquer pessoa com deficiência intelectual profunda e severa é mais lento, mas isso não quer dizer que ela não aprenda”.


Verônica dos Reis Mariano Souza, orientadora da pesquisa, trabalha principalmente com os temas “inclusão” e “deficiência”.
Verônica dos Reis Mariano Souza, orientadora da pesquisa, trabalha principalmente com os temas “inclusão” e “deficiência”.

Processos e resultados

Foi observado que, para a melhor assimilação dos conteúdos de matemática, a criança com Síndrome de Down precisa ser estimulada a aplicar espontaneamente seus conhecimentos em situações cotidianas. Além disso, foi verificado que a concentração do aluno é melhorada à medida que materiais manipuláveis são disponibilizados, como: blocos lógicos, material dourado (um sistema lúdico-educacional) e jogos infantis.

Os processos de observação e intervenção da pesquisa foram feitos em uma escola particular da cidade de Aracaju, com uma criança de 9 anos que tem a síndrome.

Primeiramente, foram executadas 36 horas de observação com o intuito de analisar o ambiente de aprendizagem e o desempenho do aluno. Foi apurado que, mesmo com a legislação que impõe a integração de pessoas com deficiência, em muitos casos, os educadores não recebem as capacitações necessárias para isso.

“O período de observação foi frustrante, porque não havia inclusão. Existia um distanciamento da professora titular com o aluno, que ficava segregado em um canto da sala. A professora assistente, que deveria auxiliar todos os estudantes, na verdade, se tornava cuidadora dele”, explica Terezinha.

Nas posteriores 80 horas de intervenções, atividades como identificação das cores, construção de objetos e contagem foram usadas com o intuito de aprimorar a assimilação de conteúdos matemáticos.

A pesquisadora desenvolveu, então, uma tabela para assinalar a desenvoltura do aluno na execução de cada exercício, antes e durante as intervenções (veja infográfico). A partir disso, foi possível afirmar que ocorreu uma grande melhoria, tanto na capacidade de concentração do aluno, quanto na absorção do assunto.


Tabela de desenvoltura do aluno na execução das intervenções, desenvolvida pela pesquisadora (Infográfico: Giordanna Belotti).
Tabela de desenvoltura do aluno na execução das intervenções, desenvolvida pela pesquisadora (Infográfico: Giordanna Belotti).

A síndrome

Descrita integralmente por John Langdon Down em 1866, a Síndrome de Down – ou Trissomia 21, como também é chamada – é uma condição congênita ocorrida durante ou imediatamente após a concepção. Possui aspectos observáveis bem definidos e é uma das deficiências intelectuais mais comuns.

Não há nenhum indício cientificamente comprovado sobre as causas da síndrome. No entanto, três fatores podem representar maiores chances para que o feto a desenvolva: idade avançada (mais de 35 anos), fertilização in vitro e o chamado mosaico genético – quando a mãe têm parte de suas células com trissomia e parte sem alteração.


(Infográfico: Giordanna Belotti).
(Infográfico: Giordanna Belotti).

No Brasil, não existe uma estatística específica sobre os casos de Down, mas com base na estimativa universal – adotada pelas organizações que lidam com a síndrome –, de um nascimento para cada 700 crianças, é possível afirmar que existem, atualmente, mais de 298 mil pessoas com essa deficiência no país.

Apesar de traços físicos semelhantes e a maior propensão a certas doenças como cardiopatia congênita e obesidade, pessoas com a síndrome tem características e personalidades diferentes entre si.

Para saber mais

A dissertação está disponível no Repositório Institucional da UFS. Para acessar, clique aqui.

Brunna Martins (bolsista)

Marcilio Costa

comunica@ufs.br


Atualizado em: Ter, 12 de março de 2019, 17:49