Qua, 28 de novembro de 2018, 14:16

Tese investiga causas de complicações neonatais evitáveis no Brasil
Pesquisa avalia estrutura hospitalar e processos de trabalho envolvidos na assistência ao parto

“A mortalidade neonatal no mundo é a parcela mais difícil de ser reduzida no âmbito da mortalidade infantil. O nascimento é o período em que podem acontecer as melhores ou piores coisas, então é o momento de maior risco. O bebê, que está em um ambiente intrauterino passa para um ambiente externo, sofrendo adaptações cardíacas e respiratórias e tudo isso pode dar certo ou não”, afirma Maria Alexsandra da Silva Menezes, pediatra que apresentou tese no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) em junho deste ano com a orientação de Ricardo Queiroz Gurgel, professor e coordenador do programa. Ela afirma que as intervenções para reduzir a mortalidade neonatal no período pré, durante e pós-parto são as que trazem melhor retorno na redução desses números.

A tese se trata de um estudo transversal com análise do banco de dados da pesquisa “Nascer no Brasil”, da Escola Nacional de Saúde Pública (Fiocruz), coorte sobre partos e nascimentos que ocorreram entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012, em 266 maternidades públicas e privadas das cinco macrorregiões do Brasil, incluindo dados de 23.894 puérperas e seus recém-nascidos (RNs).

No trabalho, foi analisada a estrutura da assistência neonatal no momento próximo ao parto no país, relacionando essa estrutura (que inclui recursos humanos, medicamentos e equipamentos), associados à necessidade do RN.

“Existem os recém-nascidos de risco habitual e os de maior risco, que nascem com peso abaixo do ideal, filhos de mães com HIV e que vão ter alguma necessidade a mais do que os de risco habitual. Então a questão inicial foi: Os recém-nascidos de alto risco estão nascendo em locais adequados para o seu nascimento, para assim reduzir o risco de morte?”.


Maria Alexsandra da Silva Menezes: “A mortalidade neonatal no mundo é a parcela mais difícil de ser reduzida no âmbito da mortalidade infantil" (Foto: Márcio Santana - Ascom/UFS)
Maria Alexsandra da Silva Menezes: “A mortalidade neonatal no mundo é a parcela mais difícil de ser reduzida no âmbito da mortalidade infantil" (Foto: Márcio Santana - Ascom/UFS)

A pesquisa concluiu que em relação à estrutura, apenas 10% dos recém-nascidos com alto risco (prematuros, baixo peso ao nascerem, filhos de mães com HIV, com má-formação) nasceram em maternidades públicas consideradas adequadas para realizar o atendimento. No setor privado, esse índice diminui para 8%.

No setor privado existe um maior número de Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTINs), que são mais bem distribuídas tanto na capital quanto no interior e nas diversas regiões do país, mas ainda nascem muitas crianças de baixo risco em unidades que possuem UTINs. “De um lado, existe o setor público superlotado porque existem poucas unidades com UTIN, do outro lado temos unidades subutilizadas no setor privado”, comprova.

As unidades públicas conseguiram uma pontuação melhor do que as privadas, principalmente em relação aos recursos humanos. Foi avaliada a formação dos coordenadores (se existiam ou não) na área de obstetrícia e neonatologia e se esses coordenadores tinham especialização na área.

“O Brasil possui um número de pediatras satisfatório. Numa lista de 34 países o Brasil ocupa a 10ª posição. Porém, 55% deles estão situados na região Sudeste. Esses dados revelam onde é preciso intervir para alcançar melhores resultados, com estímulos para garantir a distribuição territorial dos profissionais, com garantia de boas condições de trabalho e de estrutura hospitalar, para reduzir principalmente os casos de morte e complicações neonatais evitáveis”, conclui.

Para analisar os processos de trabalho, foi escolhido o programa Essential Newborn Care, desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que agrupa várias medidas, sendo elas antenatais, próximas ao parto e pós-natais. Desse programa, foram selecionados seis itens para análise. Além disso, a pesquisa investigou sobre o número de cesarianas sem indicação médica e a importância do pediatra na sala de parto.

Essential Newborn Care

O Essential Newborn Care (ENC) é um conjunto de ações de assistência constituído pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que indica cuidados a serem realizados desde o período pré-concepcional até o período pós-natal. O programa surgiu como forma de combate à má-formação fetal e mortalidade neonatal, com o estímulo da suplementação de ácido fólico para mulheres em idade fértil e da amamentação exclusiva, além de medidas estruturais de combate às possíveis complicações pós-natais. Os itens analisados na tese foram os seguintes: uso antenatal de corticoide, suporte social contínuo, uso do partograma, prevenção de hipotermia, aleitamento materno na primeira hora de vida e benefícios do método canguru.


A má distribuição das UTIs Neonatais (faltam nos hospitais públicos e ficam ociosas no setor privado) e de pediatras (55% concentrados na região Sudeste) são desafios contra a mortalidade neonatal
A má distribuição das UTIs Neonatais (faltam nos hospitais públicos e ficam ociosas no setor privado) e de pediatras (55% concentrados na região Sudeste) são desafios contra a mortalidade neonatal

De acordo com Maria Alexsandra, o corticoide antenatal é uma medicação utilizada em mães que estão em risco de parto prematuro, sendo eficaz na diminuição de problemas respiratórios dos RNs. “A prematuridade é uma das maiores causas de morte neonatal e o uso dessa medicação é a forma possível de evitar as complicações respiratórias, mas apenas 41% das mães tiveram acesso à medicação”, diz.

Outra forma de assistência ao RN com baixo peso ao nascer é o método canguru, que estimula o contato pele a pele entre mãe e bebê até o alcance de peso ideal, gerando uma série de benefícios físicos (prevenção da hipotermia, diminuição do risco de apneia e de infecções, estímulo do aleitamento materno prolongado) e psicológicos (vínculo e apego entre mãe e bebê).

“Esse contato pele a pele também é indicado aos RNs que nascem com peso ideal, pois a temperatura corporal da mãe aumenta nas primeiras duas horas após o parto, reduzindo o risco de hipotermia e estimulando a amamentação na primeira hora de vida”, explica.

Uma forma simples de monitoramento do trabalho de parto (TP) da gestante é o uso do partograma, um documento impresso que reúne os dados da evolução do processo. Segundo a pediatra, esse instrumento é eficaz seja indicando medidas de indução ou sugerindo encaminhamento para uma maternidade que ofereça UTIN, se for o caso de necessidade de uma cesárea. “O preenchimento pode ser feito por um enfermeiro obstetra, que irá acompanhar o andamento do TP”, diz.

Dessa maneira, o partograma é uma ferramenta de estímulo à redução do número de cesáreas desnecessárias, que em diversos casos citados na tese, são realizadas sem indicação ou até mesmo antes do início do trabalho de parto. De acordo com o estudo, isso pode causar maior incidência de prematuridade tardia (34 a 36 semanas de idade gestacional) e maiores taxas de admissão em UTIN. Ainda sobre a cesariana, os dados concluíram que ela é fator de risco para ausência de contato pele a pele precoce e de aleitamento materno na primeira hora de vida.

Com relação ao suporte social contínuo, a OMS recomenda o acompanhamento à gestante nos períodos entre o trabalho de parto e o pós-parto. Além disso, existe a Lei nº 11.108/2005, que garante acompanhante indicado pela parturiente durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato.

Saiba mais

A tese está disponível no Repositório Institucional da UFS. Clique aqui para ter acesso ao material.

Mariana Pimentel (bolsista)
Luiz Amaro
comunica@ufs.br


Atualizado em: Qua, 28 de novembro de 2018, 17:26
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