Ter, 18 de setembro de 2018, 14:54

Violência contra LGBTs: a intervenção de habilidades sociais no combate aos números que sangram
Pesquisa analisou efetividade de programa de habilidades sociais na redução do preconceito contra a diversidade sexual e de gênero em adolescentes

O dia parece ter se tornado cada vez mais curto para os LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) no Brasil. A cada 19 horas, um deles é morto aos olhos de muitos. Só no ano passado, 445 homicídios foram registrados em todo o país – 30% a mais que em 2016 -, colocando-o no topo dos países com maior índice de crimes de violência homofóbica em todo o mundo e deixando em alerta órgãos como o Ministério dos Direitos Humanos (MDH) e a Organização das Nações Unidas (ONU).

Os dados – alarmantes – fazem parte de um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), que estuda informações sobre crimes de homofobia no Brasil há quase quarenta anos e é considerada a maior entidade nacional sobre o assunto. Tais números apontam ainda que, na contramão do acesso à informação e das campanhas que visam à compreensão da diversidade nos mais diversos âmbitos, a violência contra LGBTs tem crescido significativamente a cada ano.

Segundo a pesquisadora Kelyane Oliveira de Sousa, mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal de Sergipe, essa realidade traduz uma intolerância massiva a algo que só diz respeito ao indivíduo e um déficit de habilidades sociais que implicam um alto nível de preconceito e discriminação contra a diversidade sexual e de gênero.

“Desde que o mundo é mundo, o grupo exerce maior poder de influência sobre os conceitos individuais. Daí as escolas, o núcleo familiar, os grupos religiosos, partidos políticos etc. Com a tecnologia e a atual dimensão de redes sociais, sem o acompanhamento dos pais, –, as crianças e os adolescentes têm crescido sob uma perspectiva social dualista e imediatista que beira a intolerância e a dificuldade em lidar com as diferenças rotineiramente”, diz Kelyane.


"Os relatórios apresentados sobre os crimes contra a população LGBTs trauzem, dentre outros aspectos, um défcit de habilidades sociais que implicam um alto nível de preconceito e discriminação contra a diversidade sexual e de gênero", afirma Kelyane Oliveira (Fotos: Jéssica Vieira/UFS)
"Os relatórios apresentados sobre os crimes contra a população LGBTs trauzem, dentre outros aspectos, um défcit de habilidades sociais que implicam um alto nível de preconceito e discriminação contra a diversidade sexual e de gênero", afirma Kelyane Oliveira (Fotos: Jéssica Vieira/UFS)

Ela explica ainda que os crimes de caráter homofóbico, que ressaltam o preconceito e a discriminação, são, dentre outras coisas, falhas acentuadas nas habilidades socioemocionais dos indivíduos, que reproduzem sistematicamente o que lhes foi ensinado ao longo da vida, sem qualquer contestação.

“Vivemos numa sociedade heteronrmativa e reproduzimos esse padrão como sendo único e verdadeiro, o que não é verdade. As pessoas são diferentes física, emocional e sexualmente, dentre inúmeros outos aspectos. Não se pode exigir que todos sejam iguais e não se pode punir ou discriminar alguém por não fazer parte do que é dito convencional. E trabalhar as habilidades sociais do indivíduo é um passo muito importante para que isso possa ser compreendido”, completa.

Essas habilidades sociais, de acordo com a pesquisadora, são os mecanismos utilizados por um indivíduo em suas relações interpessoais, o conjunto de comportamentos emitidos por ele dentro de um contexto interpessoal que expressa diversos sentimentos de modo adequado à situação, respeitando esse mesmo comportamento nos demais. Assim, resolvendo os problemas imediatos da situação e minimizando a probabilidade de futuros problemas.

Para analisar a efetividade de seis dessas habilidades sociais (empatia, civilidade, desempenho afetivo, desenvoltura social, assertividade e autocontrole) na redução dos níveis de preconceito contra a diversidade social e de gênero, Kelyane direcionou seus estudos de mestrado em Psicologia Social a uma intervenção com um grupo de 22 adolescentes, estudantes da rede pública municipal de Aracaju, com idade entre 14 e 17 anos.

Através de uma abordagem psicoeducativa e cognitivo-comportamental, a pesquisadora reuniu esses estudantes em três momentos distintos.

“Primeiramente, elaboramos um pré-teste com o objetivo de verificar os níveis de habilidades sociais e de preconceito contra a diversidade sexual e de gênero dos adolescentes. Em seguida, fizemos o treinamento dessas habilidades, voltado para questões sobre diversidade sexual, e, por fim, elaboramos um pós-teste, aferindo novamente as questões pontuadas no pré-teste”, explica.

Os dados da pesquisa de Kelyane Oliveira mostram que, no pré-teste – realizado com base no Inventário de Habilidades Sociais para Adolescentes e na Escala de Preconceito contra a Diversidade Sexual e de Gênero -, todos os entrevistados apresentaram baixo desempenho no índice de frequência geral das habilidades sociais, assim como nas habilidades específicas relacionadas à empatia, autocontrole, civilidade, assertividade, abordagem afetiva, desenvoltura social e nível moderado de preconceito contra a diversidade sexual e de gênero.

Segundo a professora do Departamento de Psicologia da UFS Dalila Xavier de França e orientadora da pesquisa de Kelyane, esse déficit nas habilidades sociais dos entrevistados reflete o ambiente no qual eles estão inseridos e a falta de acesso aos debates e discussões dobre o tema.


“As orientações devem ser iniciadas desde cedo. Temos acessos aos relatórios, conhecemos os números, assistimos aos jornais, falamos nas mortes, ficamos chorados, mas ainda são poucos os trabalhos no que se refere ao combate a essa violência homofóbica no país, que é cada vez mais devastadora", explica a professora Dalila Xavier
“As orientações devem ser iniciadas desde cedo. Temos acessos aos relatórios, conhecemos os números, assistimos aos jornais, falamos nas mortes, ficamos chorados, mas ainda são poucos os trabalhos no que se refere ao combate a essa violência homofóbica no país, que é cada vez mais devastadora", explica a professora Dalila Xavier

“Sabemos que o preconceito antecede as habilidades sociais e que, infelizmente, a realidade do adolescente de escola municipal não condiz com a almejada no âmbito educacional. Além das características emocionais próprias da idade – que devem ser levadas em consideração -, esses indivíduos são submetidos ao abandono físico e emocional, à precoce iniciação sexual, à gravidez indesejada, ao bullying nas escolas, ao ambiente das drogas e da exclusão social. Reproduzem os pré-conceitos do meio e, com isso, têm suas habilidades sociais absolutamente comprometidas, inclusive na questão da discriminação social, sendo necessárias intervenções para a mudança do quadro”, salienta a professora.

Durante o período de intervenção das habilidades – realizada entre setembro e novembro de 2015 através de dez sessões semanais, de cinquenta minutos cada, com abordagem psicoeducativa e cognitivo-comportamental através de técnicas delineadas estrategicamente de acordo com o objetivo geral do estudo -, pode-se perceber mudanças significativas no comportamento dos adolescentes.

“O pós-teste aferiu isso de forma muito consistente, o que não foi uma surpresa, uma vez que vivemos numa sociedade heteronormativa. Após as intervenções, houve uma melhora muito nítida de três das cinco habilidades: assertividade, abordagem afetiva e desenvoltura social, além de uma redução significativa no nível de preconceito”, diz a pesquisadora Kelyane Oliveira.

Ela ressalta ainda que o uso do termo “preconceito” no seu trabalho foi generalizado, visto que existe uma diferença entre esse conceito e o de discriminação.

“Em psicologia, o preconceito está associado à literalidade da palavra. É aquilo que antecede o conceito, aquilo que julgamos sem conhecimento. É um trabalho mental, amplo, complexo e particular. Todos nós temos os nossos, nos mais diversos âmbitos. Já a discriminação seria o formato comportamental do preconceito, o que fazemos ou como nos comportamos diante daquilo que pensamos. Assim, podemos não ter comportamentos discriminatórios (de agredir, de humilhar etc.), mas sermos preconceituosos em nosso íntimo. Então, quando falamos em redução no nível de preconceito, estamos, na verdade, falando sobre a questão da discriminação”, esclarece.

Para a professora Dalila Xavier, os resultados da pesquisa são importantíssimos no que se refere ao combate ao preconceito contra a diversidade sexual e de gênero em adolescentes.

“As orientações devem ser iniciadas desde cedo. Temos acessos aos relatórios, conhecemos os números, assistimos aos jornais, falamos nas mortes, ficamos chorados, mas ainda são poucos os trabalhos no que se refere ao combate a essa violência homofóbica no país, que é cada vez mais devastadora. Trabalhar as habilidades sociais em um grupo de jovens foi de uma contribuição significativa na redução dos índices de preconceito e, consequentemente, de uma melhor percepção social, a ser propagada. É um trabalho que merece ser levado adiante como exemplo. Se elaborado em outras escolas, por outros profissionais, certamente teremos resultados satisfatórios que nos tirem dessa medalha de outro que não é orgulho para ninguém” disse a orientadora da pesquisa.

Os dados que sangram

Das 445 mortes registradas pelo GGB em 2017, 194 eram gays, 43 lésbicas, 5 bissexuais, 191 trans, e 12 heterossexuais (parentes ou conhecidos de LGBTs mortos por algum envolvimento com eles). Deste total, 56% aconteceram em vias públicas e 37% dentro da casa das vítimas, sem nenhuma chance de defesa.

Os relatórios apontam ainda que o estado com maior registro de crimes contra LGBTs foi São Paulo (59), seguido de Minas Gerais (43), Bahia (35), Ceará (30), Rio de Janeiro (29), Pernambuco (27) e Paraná e Alagoas (23). Em relação às regiões demográficas, o Norte teve a maior média (3,23 por milhão de habitantes), seguido pelo Centro-Oeste (2,71) e Nordeste (2,58).

Por Jéssica Vieira

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Atualizado em: Ter, 18 de setembro de 2018, 15:11
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