Qua, 04 de julho de 2018, 18:25

Pesquisa revela condições socioambientais de famílias irrigantes
Dados mostraram dificuldades no acesso à água e falta de investimentos

Historicamente, o Perímetro Irrigado Jacaré-Curituba, localizado entre os municípios de Canindé de São Francisco e Poço Redondo, no alto sertão sergipano, é palco de lutas e conflito pela terra e pelo acesso à água, problemas marcados pela presença de monopólios agrários que afetam diretamente as atividades produtivas locais e contribuem para impactos socioambientais no semiárido.

O Projeto de Assentamento Jacaré-Curituba foi criado em 19 de dezembro de 1997 e possui uma área irrigável de 1.708 ha, divididos em 134 lotes, sendo 80 com sistema de irrigação localizada e 54 com sistema de irrigação por aspersão, que permite o plantio de milho, quiabo, feijão, raízes e frutas.

Ao longo dos 21 anos de existência do perímetro, as famílias ainda enfrentam dificuldades para garantirem as condições socioambientais adequadas que contribuam para o seu fortalecimento dentro de um modelo de produção baseada na sustentabilidade do ecossistema, incluindo o acesso à água e a assistência técnica para o desenvolvimento de cultivos de alimentos.

O cenário atual que apresenta muitos desafios é revelado na recente pesquisa Perfil da Agricultura e do Agricultor no Perímetro Irrigado Jacaré-Curituba, realizada pelo Grupo Acqua ligado ao Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) e ao Departamento de Engenharia Agrônoma (DEA) da Universidade Federal de Sergipe. O Grupo tem parceria também com o Projeto Opará: águas do rio São Francisco, patrocinado pela Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental, e Governo Federal.

O estudo mapeou como vivem e produzem os agricultores irrigantes do Jacaré-Curituba, cujas atividades dependem da capacidade hídrica do rio São Francisco, responsável pelo abastecimento das comunidades da região e pelas ações produtivas para inclusão econômica e social da população local.

As principais conclusões da pesquisa revelam que a falta de assistência técnica e dificuldades de acesso à água são ainda problemas enfrentados pelos agricultores. De acordo com o estudo, 84% dos assentados entrevistados não possuem acesso à assistência técnica necessária para o desenvolvimento de cadeias produtivas, sendo atendidos somente 14% dos trabalhadores rurais.


O Perímetro Irrigado Jacaré-Curituba fica localizado entre os municípios de Canindé de São Francisco e Poço Redondo (Fotos: Divulgação/projeto Opará)
O Perímetro Irrigado Jacaré-Curituba fica localizado entre os municípios de Canindé de São Francisco e Poço Redondo (Fotos: Divulgação/projeto Opará)

Outros problemas também foram detectados, como a falta de investimentos nos lotes, que hoje afeta 80% dos trabalhadores rurais do perímetro, as dificuldades de acesso à água nas propriedades e financiamento bancário restrito.

“O conhecimento do perfil de um assentamento rural ou perímetro irrigado tem uma grande importância nas decisões de implantação de políticas públicas e planejamentos voltados para a melhoria da qualidade de vida e da produção agrícola. Os perímetros irrigados correspondem a uma grande demanda de produção agrícola, seja para o consumo da família ou para uma produção em escala destinada ao abastecimento de grandes centros comerciais”, aponta Frankilin Modesto, autor da pesquisa, fruto de conclusão do curso de graduação de engenharia agronômica.

Para o orientador da pesquisa, professor da UFS e coordenador geral do Opará, Antenor de Oliveira Aguiar Netto, “o estudo representa uma ferramenta para a intervenção da realidade local, oportunizando uma discussão sobre a importância dos espaços agrários nos perímetros irrigados ou assentamentos rurais, reconhecendo as especificidades no modo de organização produtiva e social, com destaque para a qualidade de vida e acessibilidade às técnicas agrícolas”, ressalta.

O estudo foi a primeira produção técnica-científica do Projeto Opará sobre a bacia do rio São Francisco. “A pesquisa representa uma contribuição do projeto para discussão de ações socioambientais que atendam as demandas das comunidades da foz do rio São Francisco”, explica Antenor Aguiar.

Um dos espaços de atuação do projeto é o perímetro irrigado Jacaré-Curituba, em uma região de clima semiárido, na Caatinga, e de irrigação que abriga cerca de 800 famílias em regime de agricultura familiar com problemas de salinização do solo e desmatamento em áreas de mata ciliar.

A coleta de dados foi realizada no período de novembro de 2017 a fevereiro de 2018 através da aplicação de 140 questionários no perímetro. As principais questões abordadas foram informações sobre a área total dos lotes, as culturas essenciais exploradas entre os anos de 2014 até 2017, melhoria na qualidade de vida, agricultores/as com acesso à assistência técnica, empréstimos bancários e métodos de irrigação.

Através de ações científicas com a participação de estudantes e professores de graduação e pós-graduação do curso de meio ambiente e engenharia agronômica da UFS, o projeto busca soluções para os impactos socioambientais provocados pelo desmatamento, poluição e exploração hídrica para geração de energia que afetam diretamente o rio São Francisco.

Opará: águas do rio São Francisco

Executado pela Sociedade Socioambiental do Baixo São Francisco Canoa de Tolda, em parceria com a Universidade Federal de Sergipe, incluindo o Campus Sertão, o projeto visa recuperar as Áreas de Preservação Permanente (APP’s) e monitorar a qualidade da água nas bacias hidrográficas do rio Jacaré (entre Poço Redondo e Canindé do São Francisco) e Reserva Mato da Onça, em Pão de Açúcar, Alagoas. A iniciativa fortalece a valorização, preservação, proteção e conservação do patrimônio natural e cultural do rio São Francisco.


Mudas nativas para reflorestamento, uma das iniciativas do Opará
Mudas nativas para reflorestamento, uma das iniciativas do Opará

Nestas regiões, o Opará promove ações de restauração de áreas degradadas da caatinga com atividades de recuperação florestal, educação ambiental e monitoramento hídrico dos rios São Francisco, Jacaré e Riacho Mato da Onça, atendendo assentados e irrigantes em comunidades do Baixo São Francisco com a regularização da produção de água, por meio do equilíbrio ambiental e do uso sustentável de recursos naturais.

Através da restauração florestal contribui para a segurança hídrica no semiárido com iniciativas de reflorestamento para a caatinga do baixo São Francisco promovendo ações de proteção, conservação e preservação da biodiversidade.

As atividades de educação ambiental abrangeram cursos, palestras, treinamentos, educomunicação, seminários, dias de campo, exposição em feiras e atividades de mobilização, realizadas nas cidades sergipanas de Aracaju, São Cristóvão, Canindé do São Francisco, Poço Redondo, Propriá, Neopólis, Ilha das Flores e Brejo Grande. O público-alvo envolveu agricultores dos perímetros irrigados Betume e Jacaré-Curituba, professores, estudantes e comunidade em geral, atingindo diretamente a um total de 2.036 pessoas.

Eixos

O projeto atua no reflorestamento, por meio de plantio de mudas e condução da regeneração natural; no monitoramento ambiental, para possibilitar a identificação dos efeitos do desmatamento e das mudanças de uso do solo nos processos hidrológicos; e na educação ambiental, através da promoção de dezenas de atividades de formação, com cursos, oficinas e capacitações profissionais.

O objetivo do projeto é promover a recuperação de áreas degradadas da Caatinga com atividades derestauração florestal, educação ambiental, monitoramento hídrico e pesquisas na regiãosemiárida nos estados de Sergipe e Alagoas, na bacia hidrográfica do Rio São Francisco, Jacarée Riacho Mato da Onça.

Kátia Azevedo
Jornalista do Projeto Opará: águas do rio São Francisco


Atualizado em: Qua, 04 de julho de 2018, 18:33
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