Qua, 23 de maio de 2018, 16:39

Equipe da UFS participa de descoberta de embarcação do século XIX naufragada no rio São Francisco
Também foram encontrados restos de cerâmica de várias épocas

A equipe de Espeleologia e Arqueologia da Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) do São Francisco localizou os restos do naufrágio de uma canoa, provavelmente de meados do século XIX, no município de Porto da Folha (SE). Nas proximidades do naufrágio também foi encontrado um sítio depositário, com fragmentos de cerâmica de vários períodos históricos.

A área dos achados fica localizada na terra indígena Xokó. Os sítios arqueológicos subaquáticos foram encontrados pela equipe de mergulhadores da FPI/SE formada por arqueólogos da Universidade Federal de Sergipe e militares do Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe.

O professor do Departamento de Arqueologia (Darq) do campus de Laranjeiras Gilson Rambelli, integrante da equipe de mergulhadores, conta que o naufrágio pode ser de uma canoa de tolda, embarcação típica da região.


Os sítios arqueológicos subaquáticos foram encontrados pela equipe de mergulhadores da FPI/SE (fotos: equipe de Espeleologia/Arquelogia da FPI 2018)
Os sítios arqueológicos subaquáticos foram encontrados pela equipe de mergulhadores da FPI/SE (fotos: equipe de Espeleologia/Arquelogia da FPI 2018)

“Viemos investigar, pois desde a última FPI recolhemos relatos de que aqui havia um naufrágio, inclusive porque peças haviam sido retiradas do fundo do rio”, conta. Durante a FPI, “foram feitas as primeiras imagens subaquáticas do sítio arqueológico e os primeiros desenhos esquemáticos do local”, detalhou.

Sobre o sítio depositário, com restos de cerâmica de várias épocas, o professor do Darq Leandro Duran diz que se tratam de “peças que caíram ou foram jogadas no rio. Também existe a possibilidade de o rio ter mudado de curso e coberto ocupações ribeirinhas”. Ele, que também integrou a equipe, explica que os dois sítios são integrados e não podem ser analisados isoladamente.

Ainda de acordo com Paulo Bava de Camargo, também integrante da equipe de mergulhadores da FPI, muitas das cerâmicas encontradas foram feitas pelos indígenas, mas não eram de uso exclusivo deles.


Restos de cerâmica de variadas épocas também foram encontrados
Restos de cerâmica de variadas épocas também foram encontrados

“Eram peças para serem comercializadas”, explica. Para o arqueólogo, que também é professor do Darq, esses achados permitem entender melhor a inserção indígena na sociedade pré-colonial, colonial, imperial e até mesmo no início da República.

“Os achados arqueológicos no rio São Francisco são muito ricos porque nos permite entender qual foi a modificação em termos de produção cerâmica no decorrer da história e, dessa forma, poder fazer uma conexão entre os povos antigos e as comunidades que atualmente vivem às margens do rio”.

Próximos passos

Os achados serão registrados como sítios arqueológicos no Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan).

“Também planejamos realizar um estudo sistemático do local, pois este momento foi apenas um primeiro contato, um registro dos sítios”, afirmou Paulo Bava.

Ancestralidade e preservação

O cacique Bá, da tribo Xokó, acompanhou de perto os trabalhos dos arqueólogos na terra indígena. “Essas descobertas são muito importantes para o nosso povo, pois só vieram enriquecer o nosso passado e a nossa história, já que são uma prova de que nossos antepassados viveram aqui”, enfatizou.


O naufrágio pode ser de uma canoa de tolda, embarcação típica da região, segundo o professor da UFS Gilson Rambelli
O naufrágio pode ser de uma canoa de tolda, embarcação típica da região, segundo o professor da UFS Gilson Rambelli

O arqueólogo Gilson Rambelli destacou ainda o nível de preservação do rio São Francisco na área. “Eu tenho mergulhado de Xingó à foz do rio e não vi nenhum local com tanta visibilidade na água e com tantos peixes e vida embaixo d’água”, afirmou.

Já a procuradora da República e coordenadora da FPI/SE, Lívia Tinôco, destacou a importância da presença das comunidades tradicionais na preservação do rio.

“Ao lado da terra indígena temos a comunidade quilombola Mocambo. As atividades de pesca e agricultura que eles desenvolvem são sustentáveis e garantem a sobrevivência do rio. A vida e a história dessas comunidades estão intimamente ligadas ao São Francisco”, enfatizou.

Arqueologia subaquática na FPI/SE

Antes da FPI, Sergipe não tinha nenhum sítio arqueológico subaquático do Rio São Francisco cadastrado no Iphan. Ao longo dos três anos do programa, já foi possível identificar e cadastrar cerca de 20 sítios.

“A FPI, com articulação e apoio de vários órgãos, nos permitiu mergulhar no Baixo São Francisco, de Canindé à foz. As descobertas dos 20 sítios vão proporcionar muitos anos de estudos arqueológicos e nos colocar como referência por estarmos trabalhando no universo fluvial, o que é algo novo no Brasil”, comemora Rambelli.

Instituições parceiras

Durante a FPI/SE, mais de 200 profissionais de 28 instituições percorreram nove municípios para promover ações em defesa do rio São Francisco. São 16 órgãos federais, nove órgãos estaduais, dois órgãos municipais e uma instituição da sociedade civil organizada.

Com informações da Assessoria de Comunicação do MPF


Atualizado em: Qui, 24 de maio de 2018, 14:31
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