Ter, 09 de janeiro de 2018, 20:21

Dissertação faz análise sobre o filme O Senhor dos Anéis
Pesquisa faz apontamentos importantes sobre o poder, a vigilância e o controle em ‘A Sociedade do Anel’

Quando escreveu O Hobbit, Tolkien não sabia que seu primeiro livro sobre esses seres seria a introdução da obra que mudaria para sempre a história da literatura fantástica no mundo. Alegórico, altamente descritivo e atravessado por inúmeros discursos, O Senhor dos Anéis – sequência de O Hobbit – representa um marco editorial: vendeu inúmeras cópias, formou leitores e teve seu universo expandido e cinematografado pelo diretor Peter Jackson, a partir de 2001.

Como Tolkien não tinha noção de que seu texto significaria tanto para ele, Nicaelle Viturino não imaginava que um texto de uma disciplina do curso de Letras a colocaria frente a frente com um dos trabalhos que mais teve prazer e orgulho de realizar: analisar os discursos que Jackson criou, através da obra do Tolkien, nas telas de cinema do mundo inteiro.

“Pessoalmente, quando olho para o trabalho, penso que é algo grande, mas que ainda precisa de muito porque existem tantas outras possibilidades de sentidos; é incessante e apaixonante”, conta, ao relembrar a trajetória para escrever sua dissertação ‘O Senhor dos Anéis: a sociedade do anel: entre os mitos e as relações de poder/saber’.


"Incessante e apaixonante”, é como Nicaelle Viturino define seu trabalho de mestrado (Fotos: Adilson Andrade - Ascom/UFS)
"Incessante e apaixonante”, é como Nicaelle Viturino define seu trabalho de mestrado (Fotos: Adilson Andrade - Ascom/UFS)

Nicaelle se formou no curso de Letras pela Universidade Federal de Sergipe. Quando decidiu que gostaria de continuar sua formação e ingressar no mestrado, resolveu revisitar sua graduação. Junto a Maria Emília, professora que marcou sua vida acadêmica, decidiu que continuaria a trabalhar com o que já gostava: análise do discurso. A escolha da obra cinematográfica que serviria de análise para o trabalho não foi difícil.

“Depois que terminei meu trabalho de conclusão do curso fiquei um pouco perdida e recorri à professora Emília. Como minha passagem da graduação para o mestrado foi rápida, resolvemos que continuaríamos o trabalho que havíamos iniciado com O Senhor dos Anéis”.

Mítico e perpassado por discursos adversos, o primeiro filme da trilogia se tornou um campo fértil nas mãos de Nicaelle e Emília. “O trabalho de análise de discurso é extremamente extenso e se você muda a materialidade, mudam os discursos também. À medida que esse filme volta à tela constantemente, há movência de novos sentidos. Isso promove uma grande circulação de discursos, por isso a gente se debruçou nesse filme”, diz Emília.

Ao longo das mais de duas horas de narrativa fílmica, inúmeros discursos são construídos na tela através da odisseia empreendida por Frodo. O hobbit precisa manter seguro um anel que tem o poder de mudar mundos, promover guerras e dar, a quem o pertence, a capacidade de controlar todos os povos.

O discurso e o poder

Nicaelle, ao se debruçar sobre a obra, teve à sua frente inúmeras possibilidades e caminhos para percorrer. Todos a levariam a um único objetivo e destino: entender cada um desses discursos e de que maneiras eles são representados para o público na materialidade fílmica.


Professora Maria Emília: "Toda a relação entre o bem e o mal está ali sinalizada como sendo o anel do poder"
Professora Maria Emília: "Toda a relação entre o bem e o mal está ali sinalizada como sendo o anel do poder"

Materialidade esta que não se restringe apenas a lingüística, como conta Marília Emília. “A análise do discurso não se interessa só pela materialidade lingüística, mas qualquer uma”.

Mas a centralidade dos discursos empreendidos parece estar certeiramente incutida no que se mostra como a imagética mais forte da obra: o anel. Baseada na teoria Foucaultiana (de Michel Foucault, filósofo francês), Nicaelle encontrou uma explicação representativamente forte para o objeto que dá nome à trilogia.

“O anel é a figuratização do próprio discurso, porque Foucault diz que o discurso é aquilo que todos querem se apoderar, e o anel é esse objeto. Independente do motivo pelo qual se quer, todos querem”, diz ela.

Outro discurso forte e emblemático incutido no objeto é exposto por Emília. “Toda a relação entre o bem e o mal está ali sinalizada como sendo o anel do poder, no sentido de destruir para fazer bem a uma determinada facção de personagens. Digamos assim: é a figurativização, a corporeificação da relação bem/mal”

O controverso objeto é, de fato, a espinha dorsal que move toda a narrativa. Sua representação abriria possibilidades de análise que surpreenderia Nicaelle ao longo de toda escrita de dissertação.

“Outra possibilidade que vimos é de que o anel tudo sabe, tudo vê, a partir dele tudo acontece. Quem é que tudo sabe e tudo vê no mito religioso?”, pergunta.

A retórica do questionamento é um dos discursos apontados por ela em sua pesquisa: a influência e o atravessamento de discursos religiosos, alegoricamente incutidos ao longo de toda a história.

Ressignificando mitos

Embora aparentemente óbvia, a resposta para a pergunta de Nicaelle é mais profunda e complexa. São várias as possibilidades de análise e os resultados da autora não definem ou restringem a construção e ressignificação dos mitos na adaptação da obra de Tolkien: o anel como o poder, Frodo como Jesus Cristo – abnegado a favor de um bem maior –, Galadriel figuratizando Maria, entre tantos outros.


'A sociedade do anel' é o primeiro filme da trilogia 'O Senhor dos Anéis' (Poster original do filme:  Warner Home Video)
'A sociedade do anel' é o primeiro filme da trilogia 'O Senhor dos Anéis' (Poster original do filme: Warner Home Video)

“No meu trabalho falo justamente sobre isso [discurso religioso e influências], sobre as leituras que ele já tinha feito e as influências, e tudo isso é a base para a constituição do discurso que ele traz. Claro que é uma releitura porque já passa por outras mãos, o tradutor, o diretor do filme, tudo isso conta também para a análise, mas sinalizamos para determinadas tendências e uma delas é esse discurso religioso”, afirma Nicaelle.

Esse discurso religioso apontado por Nicaelle centraliza também uma figura importante na obra de Tolkien: a mulher. “Há uma santificação das mulheres no filme e na história e aí temos a presença da mulher na vida do próprio autor”, comenta Emília. “Se você observar bem, há momentos no filme em que a imagem de Maria está ali, colocada. Vemos muito isso na presença e na imagem de alguns elfas”.

Nicaelle afirma que Galadriel ilustra bem a construção desse discurso no filme. “A gente vê que ela é a elfa que salva Frodo, que abre mão de parte do poder e da imortalidade para que ele vivesse e cumprisse sua jornada. Há um trecho no filme que Galadriel fala sobre como conseguiu passar ilesa por algumas tentações. O anel chama por ela e ela consegue se afastar dessa tentação. Tal qual Maria, ela abnega para ser pura, santa”, conta.

Esses discursos religiosos atravessam toda a obra de Tolkien e foram também levados às telas do cinema. Frodo, personagem central da narrativa ficcional, é claramente apontado como Jesus Cristo na dissertação de Nicaelle.

“Frodo abre mão do Condado e da convivência com os amigos em prol de um bem maior: a salvação, o paraíso. Vemos que esse discurso é disseminado e assimilado facilmente por todos, por que o que nós buscamos? Paz, sossego...”, diz.

Porém, não são apenas os mitos e alegorias religiosas que fazem parte dos discursos encontrados e apontados por Nicaelle. Aliás, a primeira abordagem dela seguiu por um caminho mais específico: pensar a vigilância e o controle no enredo que se desdobra em magia, amizade e guerras épicas em um mundo paralelo, a Terra Média.

A vigilância e o controle

Na Montanha da Perdição não vivia um hobbit, mas vivia o poder. Vivia o controle. Ambos desenhados metaforicamente pela representação de um Olho: tudo via, tudo controlava, tudo possuía. Menos o anel – ou tal história teria certa incapacidade de acontecer.

Os discursos de vigilância e poder perpassam a história de maneira ora sutis, ora bastante evidentes. E vão desde o contrato tácito entre a obra e o espectador (que pode reconhecer esses discursos de modos subversivos) até a literalidade das cenas filmadas e do próprio roteiro.

“Toda vez que revemos o filme temos um insight novo sobre essa questão da vigilância e do poder, mas partimos inicialmente da questão do Olho, que está na Montanha da Perdição, que tudo vê, vigia e controla através da força do anel”, conta Nicaelle.

Essa significação do controle e da vigilância aparece em vários momentos: nos diálogos dos personagens, na falta deles, na hierarquização na cadeia de personagens e na própria opção de filmagem do diretor.

“Vemos que há certo controle do discurso em muitas partes do filme. Por exemplo, em uma das cenas em que o Gandalf [mago] está atravessando uma caverna, ele diz: não fale isso aqui, é proibido porque vai despertar o monstro das trevas. Não é um controle apenas da ação imediata, é um controle que perpassa tudo, em momentos distintos”, conta Nicaelle.

O Olho, famoso por sua indefinição corpórea, é comparado por Maria Emília com o Panóptico, de Foucault. Em Vigiar e Punir o autor descreve uma estrutura projetada para produzir o efeito de controle e vigilância em um sistema penitenciário. A figura do romance do Tolkien não é muito diferente.

“Esse olho que tudo vê e vigia tem a ver com a sociedade panóptica, que Foucault traz em Vigiar e Punir. É o controle de tudo, o olho vigilante”, aponta.

Nicaelle também conta que essa vigilância está na própria disposição de cena e na fala dos personagens. “Eles se vigiam mutuamente. Os membros da Sociedade do Anel estão em vigilância constante uns com os outros. Se trouxermos para a nossa realidade isso acontece muito. Há câmeras em todos os lugares, tem sempre alguém olhando seu trabalho. Tudo tem essa interligação”.


Ionária Santos da Silva (à esquerda), dá continuidade às análises dos filmes da trilogia
Ionária Santos da Silva (à esquerda), dá continuidade às análises dos filmes da trilogia

As Duas Torres

A professora Marília Emília continua trabalhando com a cinematografia da obra de Tolkien. O trabalho com o primeiro filme, A Sociedade do Anel, sob essa perspectiva já está finalizado, mas a pesquisa continua com o segundo filme da trilogia: As Duas Torres.

Agora ela trabalha com a aluna Ionária Santos da Silva, estudante de Letras, e segue a mesma abordagem iniciada nas pesquisas do primeiro longa-metragem.

Ronaldo Gomes (bolsista)
Marcilio Costa

comunica@ufs.br


Atualizado em: Sex, 12 de janeiro de 2018, 11:30
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