Seg, 18 de setembro de 2017, 17:28

Pela primeira vez, síndrome é associada ao vírus Chikungunya
Pesquisa foi desenvolvida por parceria entre a UFS e universidade britânica

A Universidade Federal de Sergipe (UFS), em parceria com a universidade britânica Imperial College London, fez uma importante descoberta, que pode ser um primeiro passo para se compreender mais a respeito da Síndrome de Guillain-Barré (SGB). Isso porque a doença, que já era relacionada ao Zika Vírus, foi relacionada pela primeira vez ao Vírus Chikungunya. A pesquisa foi divulgada na revista científica The Lancet dos Estados Unidos.

A SGB é uma doença autoimune que ocorre quando o sistema imunológico do corpo ataca parte do próprio sistema nervoso por engano. Isso leva à inflamação dos nervos, que provoca fraqueza muscular. Os sintomas se manifestam inicialmente nos membros inferiores até se espalhar para o restante do corpo.

Após a análise de dados epidemiológicos da Polinésia Francesa, em que 42 pacientes foram diagnosticados com a Síndrome de Guillain-Barré, percebeu-se que todos apresentavam anticorpos para o Zika Vírus. Isso serviu de base para que também fosse feita uma associação entre o ZKV e o aumento dos casos de SGB durante o surto ocorrido no Brasil entre os anos de 2014 e 2016.


Roque Pacheco de Almeida, chefe do laboratório de biologia molecular do HU
Roque Pacheco de Almeida, chefe do laboratório de biologia molecular do HU

“A relação aconteceu porque foi percebido que entre esses anos, com o aumento da incidência dos casos de Zika, houve também um aumento dos casos de SBG. É uma doença que tem um quantitativo estável no Brasil e quando fomos analisar as regiões sudeste e nordeste, percebeu-se um aumento de 20 vezes nos casos da Guillain-Barré”, explica o pesquisador Roque Pacheco de Almeida, chefe do laboratório de biologia molecular do Hospital Universitário da UFS (HU).

Segundo ele, o tratamento é feito com a retirada desses anticorpos que estão causando a doença, por meio físico – “retirando como se estivesse fazendo uma limpeza” –, ou dando para o paciente uma elevada quantidade de anticorpos de pessoas sadias, que vai repor esse ambiente e impedir que ambos convivam no mesmo espaço.

Sobre as principais vítimas da síndrome, Roque Pacheco lembra que toda doença infecciosa depende de fatores ambientais e genéticos, por isso é difícil determinar em quem ela irá se manifestar. “O que sabemos é que com o vírus [Zika] aumentaram-se as chances, mas nem todos tiveram a síndrome. Agora estamos tentando conhecer os que terão mais chances de contraí-la”.

Parceria

Roque Pacheco explica que, em parceria com a universidade britânica, foram analisados os casos da Paraíba e de Sergipe, depois a publicação foi feita como um relato de caso. Ele conta que a pesquisa é inédita porque antes a síndrome era associada apenas ao Zika e hoje ela pode ser associada também à Chikungunya. Até então, não havia sido feita qualquer relação entre esta e a síndrome.


A pesquisa foi divulgada na revista científica The Lancet dos Estados Unidos
A pesquisa foi divulgada na revista científica The Lancet dos Estados Unidos

Os casos de SGB, segundo o pesquisador, começaram na Polinésia Francesa, “depois ela veio para o nordeste do Brasil: Bahia, Pernambuco, onde teve o maior número de casos, Paraíba, todo o nordeste e o sudeste do Brasil”.

Os dados brasileiros revelaram que durante o ano de 2016 a Paraíba apresentou 9.479 casos de Chikungunya e 1.223 casos de Zika. Também foram registrados 13 casos de SGB na mesma região, sendo que dentre esses, 10 foram em decorrência de infecção com Chikungunya, dois por dengue e um por Zika. Segundo Roque Pacheco, essas estatísticas revelam uma situação preocupante.

“É uma doença infecciosa, que pode causar a microcefalia, além de poder levar à morte. O tratamento não é tão simples como o da Guillain-Barré tradicional, ela não responde muito bem a terapia”.

Próximos passos

O pesquisador conta que agora os estudos buscarão entender porque as pessoas infectadas pelo Zika tiveram microcefalia ou SGB. Através de um estudo genético, tentarão detectar alterações que tenham permitido que essas pessoas- no caso, crianças - fossem diagnosticadas com microcefalia.

Guilherme Almeida (bolsista)
Marcilio Costa
comunica@ufs.br


Atualizado em: Seg, 18 de setembro de 2017, 17:38
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