Seg, 10 de julho de 2017, 17:28

Gastos com acidentados em rodovias podem chegar a quase R$ 10 milhões ao ano, avalia estudo
Dados de pesquisa de doutorado mostram gastos públicos com atropelamentos de pedestres em rodovias federais sergipanas

Todos os dias milhares de veículos trafegam pelas rodovias federais brasileiras. Automóveis de grande, médio e pequeno portes coexistem nas estradas e às vezes estabelecem uma comunicação com pedestres que é falha e fatal. As estatísticas de vítimas de acidentes causados pelo trânsito são cruéis: uma estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou, no ano passado, que ocorrem cerca de 23,4 mortes por cada 100 mil habitantes. Ainda de acordo com a OMS, aproximadamente 1,25 milhões de pessoas morrem por ano decorrentes de acidentes de trânsito; desses, cerca de 270 mil são por atropelamento.

Esses números são significativos para a rede de saúde pública, que gasta milhões na recuperação de pacientes que chegam em estado grave aos hospitais. Foi para entender de que maneira essas mortes causadas por acidentes de trânsito impactam no sistema de saúde brasileiro que Andréia Centenaro Vaez resolveu investigar, durante o seu doutorado, as mortes causadas por atropelamento em duas rodovias federais sergipanas: a BR-101 e a BR-235. Durante a pesquisa – de janeiro de 2009 a junho de 2015 -, foi levantando um número total de 399 atropelamentos, dos quais 155 vítimas morrem no local do acidente e 244 foram hospitalizadas; no hospital 31 morreram, computando um total de 186 vítimas fatais.


A pesquisa de Andréia Centenaro Vaez calculou quanto custa uma vítima acidentada, para avaliar os gastos públicos (Fotos: Adilson Andrade - Ascom/UFS)
A pesquisa de Andréia Centenaro Vaez calculou quanto custa uma vítima acidentada, para avaliar os gastos públicos (Fotos: Adilson Andrade - Ascom/UFS)

Sua pesquisa, realizada entre os anos de 2009 a 2015, também analisou de maneira multivariada os preditores e indicativos de vulnerabilidade nessas duas rodovias e buscou compreender as causas e as possíveis soluções para o problema que acomete a saúde pública e a economia do país. Orientada por Valter Joviniano de Santana Filho, professor da Universidade Federal de Sergipe, Andréia também mapeou as áreas dessas rodovias em que os atropelamentos acontecem com mais frequência e em quais o risco de ser fatal é maior.

“A BR-101 corta o estado de norte a sul e está em duplicação, enquanto a 235 segue de Aracaju até Carira, é de pista simples e com acostamento. O comportamento de mortalidade delas também diferencia bastante. No cálculo que fizemos sobre a taxa de mortalidade, descobrimos que elas têm comportamentos inversos: quando começou a duplicação a mortalidade na 101 diminui e consequentemente na 235 aumentou”, explica. Os dados, entregues às autoridades competentes, ajudam a pensar em formas de investimento em políticas públicas.

Valter Joviniano entende a importância da pesquisa como uma maneira de pensar medidas preventivas. “A pesquisa tende a fazer um ‘raio-x’ nos acidentes de trânsito. De posse desses dados, as autoridades competentes podem fazer intervenções específicas e de forma mais eficiente, gerando um maior impacto a um custo operacional menor”.

Ele ainda conta que pesquisas como essa são formas eficientes de dar um retorno para a sociedade do que é produzido na academia. “Como uma instituição que produz conhecimento, trabalhos desse tipo não só promovem a qualificação de pessoas, ação que foi cumprida com a formação de um doutor, mas também devolve à população que financia a instituição dados que podem fomentar políticas em benefício da sociedade”.

Fatores de risco

Muitos são os indicativos responsáveis pelos atropelamentos nas BRs 101 e 235. Esses indicativos não diferem muito da realidade da maioria das rodovias brasileiras: condução perigosa, consumo de bebida alcoólica – tanto por motoristas quanto por pedestres - travessia de pedestres em locais inapropriados e evasão dos motoristas são alguns apontamentos que Andréia Centenaro encontrou para explicar o número alto de acidentes ocorridos, mas não só eles.


“O código de trânsito diz que ciclomotores não podem ser conduzidos em rodovias federais e percebemos que isso acontece nessas BRs. Um número significativo de vítimas é através desses veículos, que circulam principalmente no acostamento, onde comumente a vítima também está”, explica. Andréia explica ainda que alguns acidentes são quase inacreditáveis, como a invasão de casas por veículos. Ela diz que as edificações são construídas em locais considerados de risco e isso aumenta ainda mais os fatores contribuintes para que acidentes assim aconteçam.

Mas os motoristas não são os únicos culpados pelo número alto de atropelamentos. A irresponsabilidade do pedestre também contribui para que as estatísticas cresçam. A BR-235 tem cerca de três quilômetros localizados em Aracaju e conta com semáforos e passarelas, além de grades de proteção. “Temos duas passarelas e também redutor de velocidade de 40km/h, mas muitas vezes o pedestre tem o comportamento inadequado mesmo. Se você perceber, as telas de proteção estão todas furadas e muitas famílias fazem a travessia por baixo da passarela”, aponta Andréia.

Além de Aracaju, que concentra o maior número de vítimas, os municípios de Nossa Senhora do Socorro, onde parte da BR-101 está localizada, e de São Cristóvão são onde os acidentes acontecem em maior quantidade.

Vítimas

As vítimas desses acidentes têm perfil bem definido: 69,7% são do sexo masculino e 58,5% tem até 45 anos. Com relação ao óbito os números se invertem: as vítimas acima dos 45 anos são as mais suscetíveis a padecerem fatalmente, enquanto as mais jovens têm maiores chances de sobreviver – embora existam outros fatores que excedem à regra, como o tipo de acidente, a velocidade e o tamanho do veículo.

Já os números dos condutores que estão envolvidos em acidentes são taxativos: mais de 90% dos veículos são conduzidos por homens. “Alguns estudos tratam da questão da masculinização do veículo, que é quando o homem se ‘empodera’ quando está dirigindo, não respeitando os limites de velocidade, por exemplo”, diz Andréia.

Os números monetários por vítima para a economia do país também são alarmantes. Essas vítimas chegam às instituições hospitalares e muitas vezes precisam de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), gerando gastos hospitalares exorbitantes. Além disso, há também todo um trabalho de reabilitação, pois as vítimas ficam com sequelas – algumas perceptíveis e de curto prazo, outras não identificáveis a princípio e de longo prazo.

Estima-se que os valores ultrapassem os 60 milhões de reais, cerca de 9,6 milhões por ano. 92% desse valor é relacionado à vítima. Andréia conta que dentro desses números existe o que se chama de custo invisível, que é a perda de produtividade das vítimas fatais. “Nós pegamos com base no Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] um estudo que estimava o custo para cada tipo de vítima em cada tipo de veículo. O estudo calculava quanto custa uma vítima em óbito – leve, moderada, intermediária e grave- e o Brasil gasta mais de 60 milhões de reais, seja na assistência hospitalar ou pré-hospitalar (os gastos com veículos, policiais) e também a perda na produção”.

Prevenção

Há inúmeras maneiras de se prevenir os acidentes no trânsito. O tema é debatido em congressos, é discutido pelas autoridades responsáveis e já existe lei para que pese no bolso a irresponsabilidade - a exemplo da lei seca. Especificamente nas rodovias estudadas por Andréia, há uma solução pontual que ajudou a reduzir as estatísticas: a instalação de radares, que começou em 2012, durante sua análise.


Pedestres e passageiros precisam colocar em prática boas maneiras de travessia e condução, destaca pesquisadora
Pedestres e passageiros precisam colocar em prática boas maneiras de travessia e condução, destaca pesquisadora

“Nós fizemos uma análise e conforme eles instalaram os radares houve uma redução da mortalidade: cerca de 5% na 101 e 7% na 235. Em percentual parece pouco, mas se olharmos por um quantitativo de óbitos, dá uma diferença muito grande. O número de atropelamentos teve um decréscimo muito grande nesses trechos em que a velocidade foi reduzida”, diz. A redução vai de acordo com o que a Organização Mundial da Saúde preconiza, que os países com controle de velocidade em trechos urbanos tenham um número menor de mortalidade no trânsito.

Andréia acredita que é preciso também sensibilizar a população para respeitar as regras do trânsito. Os limites de velocidade e a sinalização são soluções plausíveis para que os números sejam reduzidos, mas pedestres e passageiros precisam começar a entender e colocar em prática boas maneiras de condução e travessia no trânsito.

Mas, mais do que isso, Andréia confia no trabalho de base. “Trânsito deve ser uma questão abordada nas escolas. O código de trânsito tem que ser ensinado às crianças desde pequenas para que elas aprendam a respeita os limites, sejam de velocidade ou sinalização, além dos locais onde ela pode e deve atravessar”.

A recomendação também é de que os pedestres estejam atentos a cores de roupa. A medida pouco difundida, porém, eficiente, ajuda muito a prevenir acidentes. A orientação é de que os pedestres que circulem à beira de rodovias usem roupas claras porque facilita a visibilidade dos motoristas – principalmente em períodos noturnos.

Ao final da pesquisa ela realizou duas atividades extensivas vinculadas à UFS. Uma delas tendo como foco ações preventivas com passageiros de ônibus e a outra tendo como finalidade palestras em escolas.

Para saber mais

A tese está disponível, na íntegra, no Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD). Clique aqui para acessar.

Ronaldo Gomes (bolsista)
Marcilio Costa
comunica@ufs.br


Atualizado em: Seg, 10 de julho de 2017, 17:59
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