Seg, 15 de maio de 2017, 18:14

Estudo pioneiro confirma grave poluição no rio Poxim
Método utiliza análise sobre o nível de sobrevivência de um microcrustáceo

Um dos rios que embelezam Aracaju está sendo vítima da própria cidade. A poluição do rio Poxim, que também é fonte de sustento de famílias de pescadores, é bastante conhecida e já foi alvo de diversos estudos. Agora, um experimento pioneiro desenvolvido no Laboratório de Estudos Ecotoxicológicos da Universidade Federal de Sergipe (UFS) confirmou os impactos degradantes sofridos pelo rio, através de um teste que verifica a contaminação da água de acordo com o nível de sobrevivência de um microcrustáceo.

Os misidáceos - como são conhecidos os indivíduos da espécie Mysidopsis juniae - são pequenos crustáceos parecidos com o camarão. São organismos muito sensíveis e sua utilização para esse tipo de experiência, em águas salinas e salobras, é a única regulamentada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Em Sergipe, o Laboratório de Estudos Ecotoxicológicos é o primeiro a utilizar a espécie para testes em águas salinas ou salobras, que são, respectivamente, as do mar e as dos estuários - estes são a parte de um rio ou o conjunto de rios (bacia hidrográfica) na desembocadura com o mar; todo o trecho do rio Poxim que percorre Aracaju é de águas estuarinas.

O experimento com misidáceos foi o primeiro realizado no estuário do rio Poxim e rendeu aos pesquisadores uma premiação no X Encontro de Recursos Hídricos em Sergipe (Enrehse), realizado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh) no último mês de março. A pesquisa foi desenvolvida pelos estudantes Anderson Alex Oliveira dos Santos e Meggie Karoline Silva Nascimento e supervisionada pela professora do Departamento de Ecologia Jeamylle Nilin. A professora é a responsável pelo laboratório e orientou Anderson em seu trabalho de conclusão do curso de Ecologia, inaugurando a pesquisa com misidáceos no rio Poxim, com a colaboração de Meggie, também estudante do curso.


A pesquisa, segundo Jeamylle Nilin, reforça a necessidade de implementação de políticas públicas para o saneamento básico (Foto: Adilson Andrade/Ascom)
A pesquisa, segundo Jeamylle Nilin, reforça a necessidade de implementação de políticas públicas para o saneamento básico (Foto: Adilson Andrade/Ascom)

Segundo Jeamylle, desde o final de 2013 o laboratório dispõe de um cultivo de misidáceos para suas análises. “As primeiras espécies foram adquiridas de outro laboratório e, a partir de então, a população se mantém através da reprodução”, explica. “Os misidáceos se alimentam de outro microcrustáceo, a Artemia sp, também cultivado no laboratório”, detalha Jeamylle.

A análise realizada pela equipe consiste em coletar água do rio em pontos distintos. Essa amostra é então distribuída em três recipientes (béqueres), nos quais, em cada um, são colocados 10 indivíduos dos misidáceos, vivos, juvenis com idade de 1 a 7 dias. Os cientistas então avaliam a qualidade da água de acordo com o índice de sobrevivência dos misidáceos, comparando-o ao controle, que é outro recipiente contendo outros 10 indivíduos, porém em água “limpa” - salgada artificialmente (ver infográfico).

No estudo das águas do rio Poxim, foram realizadas 6 coletas – em agosto, outubro e dezembro de 2014; e em fevereiro, abril e julho de 2015 -, em três pontos da cidade de Aracaju: na ponte Gilberto Vila Nova de Carvalho, bairro Inácio Barbosa; no píer do Parque dos Cajueiros; e na ponte Godofredo Diniz, que liga os bairros 13 de Julho e Coroa do Meio.


Infogr fico

“Os locais foram selecionados por abrangerem o estuário do rio Poxim, na área habitacional de Aracaju”, esclarece Anderson Santos. “A escolha foi também de acordo com o método de coleta, a partir de pontes ou píer, porque coletar nas margens pode interferir nas amostras, por causa dos sedimentos”, completa.

Resultados

A pesquisa de Jeamylle e seus alunos confirmou o que outros métodos já indicavam: a baixa qualidade ambiental das águas do rio Poxim. As pesquisas apontam para toxidade aguda nas amostras coletadas nos meses de agosto/2014 e fevereiro/2015, na ponte do Inácio Barbosa e no Parque dos Cajueiros. Já em dezembro/2014, a toxidade aguda foi verificada nas amostras de todos os pontos coletados.

Os resultados mostram que a contaminação das águas diminui no período chuvoso e aumenta no período de estiagem. Jeamylle Nilin explica esse efeito. “Isso acontece porque o Poxim recebe muito esgoto, sem tratamento”, alerta a professora. “O esgoto, principalmente o doméstico, é um dos principais causadores da baixa qualidade do rio”, analisa.


Anderson Santos alerta sobre o impacto que o ser humano pode causar no seu próprio ecossistema (Foto: Adilson Andrade/Ascom)
Anderson Santos alerta sobre o impacto que o ser humano pode causar no seu próprio ecossistema (Foto: Adilson Andrade/Ascom)

Isso mostra porque os resultados das amostras coletadas no bairro Inácio Barbosa indicam maior contaminação: a região é a de maior densidade habitacional nas margens do Poxim. Nesse trecho, as águas do rio já vêm trazendo também a poluição recebida nos bairros Jabutiana e Santa Lúcia, área em processo avançado de expansão imobiliária. Ironicamente, a vegetação ciliar do Poxim vem dando lugar a condomínios com nomes ligados à natureza: Flores, Verde, Bosque, Serras, Fontes.

Além da poluição produzida pela urbanização em suas margens, os rios que cortam Aracaju recebem ainda as águas contaminadas de mais de 70 canais que fazem a macrodrenagem da cidade. Análises microbiológicas e físico-químicas mostram que o Poxim apresenta índices de nitrogênio amoniacal e amônia não ionizada acima do permitido pela resolução 357/2005 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), nas amostras das três coletas, em todos os meses - com exceção, apenas, dos meses de outubro de 2014 e abril de 2015, na ponte do bairro 13 de Julho, já próximo ao rio Sergipe e ao mar.

“Na verdade, os canais daqui são riachos que foram modificados e transformados para fazer a macrodrenagem”, alerta Jeamylle, “esse é o grande problema, porque o humano ocupou muito a região costeira e transformou rios e riachos em canais de esgoto”.


Meggie Nascimento: dados foram apresentados em evento que recebeu gestores públicos (Foto: Ronaldo Gomes/Ascom)
Meggie Nascimento: dados foram apresentados em evento que recebeu gestores públicos (Foto: Ronaldo Gomes/Ascom)

Segundo dados oficiais do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SNIS) de 2014, apenas 36,5% dos domicílios de Aracaju tinham coleta e tratamento de esgoto. “Então esse é um ponto muito importante, que reforça a necessidade de implementação de políticas públicas para o saneamento básico: ainda temos um grande caminho a percorrer”, destaca Jeamylle. A professora ressalta as consequências da falta de cuidados com a hidrografia de Aracaju. “O esgoto, uma vez que vai pro rio, vai para o mar, e isso afeta tanto do ponto de vista ecológico, quanto turístico e social”, assinala.

Nesse aspecto, a estudante Meggie Nascimento salienta a relevância da premiação concedida à pesquisa pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos. “Além da satisfação pela conquista, foi importante porque apresentamos esses resultados em um evento onde estavam presentes muitos gestores públicos”, analisa.


Imagem de satélite (Google) mostra esgoto de um canal sendo despejado no estuário dos rios Poxim-Sergipe
Imagem de satélite (Google) mostra esgoto de um canal sendo despejado no estuário dos rios Poxim-Sergipe

Pesquisa e premiação

O Laboratório de Estudos Toxicológicos foi instalado em 2013 e ficou sob responsabilidade da professora Jeamylle Nilin, que ingressara naquele ano no Departamento de Ecologia da UFS. A partir daí, a doutora em Ciências Marinhas Tropicais pela Universidade Federal do Ceará formou equipes de estudantes para pesquisar a ecotoxicologia em águas salinas e salobras. Anderson Santos e Meggie Nascimento faziam parte dessas pesquisas e as utilizaram nos seus trabalhos de conclusão de curso.

Enquanto Meggie focou seus estudos na linha voltada aos compostos químicos, Anderson trabalhou com as amostras ambientais, área que envolve a pesquisa com os misidáceos no rio Poxim. “No entanto”, detalha Meggie, “o trabalho no laboratório é coletivo, dessa forma todos contribuem com as pesquisas dos colegas”. A estudante apresentou os resultados no Enrehse porque, quando este foi realizado, Anderson já havia concluído a graduação, enquanto Meggie estava cursando o mestrado em Ecologia. “E também porque, como colaborei na pesquisa, conhecia os dados e os resultados”, destaca.

“O prêmio serviu também para dar visibilidade ao curso de Ecologia, que é relativamente novo”, acrescenta Anderson (o curso foi criado em 2010). “Demonstra também a preocupação em dar um retorno à sociedade, mostrando o impacto que o ser humano pode causar no seu próprio ecossistema: o Poxim, um rio urbano completamente poluído, sem saneamento”, pontua.

Jeamylle explica que a relação entre a população e o meio ambiente tem mudado com o tempo. “Por muito tempo se percebia que o pensamento que prevalecia era o de ‘poluir, porque a natureza vai diluir’”, resume. “Nas últimas décadas, entretanto, consideramos um novo paradigma, o do ‘bumerangue’, ou seja, a compreensão de que tudo o que fazemos contra o meio ambiente acaba voltando contra nós”, ilustra a docente.

Apesar de essa nova perspectiva estar mais difundida, Jeamylle analisa que a situação ainda se encontra distante do ideal. “As interferências no meio ambiente e seus impactos são enormes, enquanto eliminá-las completamente é muito difícil de acontecer”, reflete. A pesquisadora esclarece que o meio ambiente tem uma capacidade regenerativa, ou seja, até se recuperaria se a poluição cessasse. Como essa possibilidade é remota, o ideal é que haja uma convivência sustentável entre a cidade e o ambiente. “Precisamos auxiliar o rio a melhorar, a se regenerar, através de técnicas de limpeza, tratamento da água. E, claro, quanto menos interferência, melhor”, conclui.

Marcilio Costa
comunica@ufs.br


Atualizado em: Seg, 15 de maio de 2017, 18:31
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