Seg, 27 de março de 2017, 16:46

Verticalização e outros fatores geram diferentes ‘microclimas’ em Aracaju
Impermeabilização do solo e redução da vegetação também influem nos climas intraurbanos

O crescimento e a concentração do espaço urbano a partir de construções verticalizadas costumam ser comuns em áreas próximas ao litoral, o que desencadeia a redução de vegetações e o aumento da temperatura em alguns lugares. Atualmente, esse processo também tem sido comum em bairros de cidades de médio e pequeno porte, como o bairro Atalaia, localizado na zona sul de Aracaju.


As ilhas de calor surgem a partir da verticalização, da impermeabilização do solo, do aquecimento de materiais urbanos durante o dia e da redução de vegetação (Foto: Adilson Andrade/AscomUFS)
As ilhas de calor surgem a partir da verticalização, da impermeabilização do solo, do aquecimento de materiais urbanos durante o dia e da redução de vegetação (Foto: Adilson Andrade/AscomUFS)

De acordo com a pesquisa realizada pela arquiteta Bruna Fortes, durante sua dissertação de mestrado sob orientação da professora de Geografia Eliane Santana, o bairro demonstra o aparecimento de ilhas de calor e ilhas de frescor (ver infográfico), que são áreas onde as temperaturas estão, respectivamente, acima ou abaixo da temperatura média da cidade.

Segundo as análises, as ilhas de calor surgem a partir da verticalização, que impede a circulação do vento em alguns pontos, da impermeabilização do solo, do aquecimento de materiais urbanos durante o dia e da redução de vegetação. Além disso, outros fatores como o tráfego de veículos e o uso de ar condicionado contribuem para o aumento de calor na cidade por serem grandes consumidores de energia. Ao lado disso, estão as ilhas de frescor, que são compostas por áreas de vegetação ou de água e de espaços que permitem a circulação do vento.

Essa ocupação do solo no bairro Atalaia, principalmente, através de construções verticalizadas influenciou nas temperaturas médias. A pesquisa buscou observar os contrastes térmicos do bairro trabalhando com os meses mais quentes do ano (janeiro, fevereiro ou março) e os mais frios (julho ou agosto). Através do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do instituto de pesquisa científica The Earth Resources Observation Systems (EROS), Bruna utilizou aerofotografias e imagens satélites para obter imagens termais que auxiliassem na análise do albedo, que é a quantidade de radiação solar que pode ser refletida por uma superfície.


Bruna Fortes: "As temperaturas são diferentes por problemas distintos." (Foto: Dayanne Carvalho)
Bruna Fortes: "As temperaturas são diferentes por problemas distintos." (Foto: Dayanne Carvalho)

A partir dessa observação entre as temperaturas dos meses mais quentes e frios, a pesquisa notou a formação de ilhas de calor e de frescor nos períodos analisados e a influência na ventilação do bairro devido à disposição das construções urbanas. “Atrás do Hotel Celi fica o Hotel Ibis e atrás dele tem uma praça. Todas as casas nessa região ficaram prejudicadas. É uma estufa, não venta mais”, informa Bruna.

A redução da vegetação, a concentração desses materiais e o desenho urbano do bairro contribuem ainda para a existência de climas intraurbanos, resultantes da redução de vegetação e de barreiras que impossibilitam a passagem do vento, como as construções verticalizadas. “O clima do bairro Atalaia é diferente do clima do bairro Aruana, que é ao lado e tem um clima arejado. As temperaturas são diferentes por problemas distintos. No bairro Jardins existem áreas mais quentes e outras mais frescas. Esses climas intraurbanos, de acordo com a configuração, são bem variáveis. Isso eu consegui perceber no meu trabalho”, destaca a arquiteta.

O estudo ainda apontou que em áreas de vegetação densa, a função da área verde se tornou ineficaz por estar próxima a lugares com um grande volume de construções. Além disso, em sua pesquisa, Bruna observou a influência de materiais e cores da fachada dos prédios nos resultados do albedo. “Uma fachada muito escura absorve calor durante o dia e à noite isso vai ser liberado. Então, muitas vezes a gente encontra uns lugares em que à noite é mais quente do que pela manhã porque é nesse horário que o calor está sendo liberado. Tem material que absorve mais calor que outros por conta da condutibilidade térmica, como o asfalto que é preto e absorve muito calor”, explica.


Professora Eliane Santana: o desafio de conciliar a arquitetura e a geografia (Foto: Schirlene Reis/AscomUFS)
Professora Eliane Santana: o desafio de conciliar a arquitetura e a geografia (Foto: Schirlene Reis/AscomUFS)

Bruna Fortes foi orientada pela professora de Geografia Eliane Santana, que aponta o desafio que a pesquisa representou, considerando a interdisciplinaridade do trabalho – o mestrado em Geografia acolheu o projeto de Bruna, com recorte relacionado à arquitetura. “A gente tem o viés da climatologia e o da problemática socioambiental urbana. O maior desafio era traçar a arquitetura dela”, ressalta Eliane.

A pesquisa analisou o processo de urbanização e as implicações para o clima urbano do bairro em uma escala temporal que passou por 1984, 2008 e 2015. Em 1984, a área da praia estava dentro do limite do bairro e apenas 24,80% era de área impermeável. Em 2008, o mar já havia saído do limite do bairro e apenas 45% dele correspondia à área verde e espaços com água. Em 2015, esse número caiu para 35%.


Como se formam as ilhas de calor
Como se formam as ilhas de calor

Cidade e planejamento

De acordo com a pesquisa, é importante a presença da vegetação como elemento de frescor para amenizar a temperatura e regular o espaço térmico urbano. As construções e ocupações em áreas verdes configuram um dos fatores que mais contribuem para a formação de microclimas urbanos diferentes dos climas regionais. O estudo reforça que precisa existir um planejamento que parta do entendimento de clima, relevo e hidrografia.

“Vejo que tem muitos arquitetos que projetam da forma que é conveniente para eles e não percebem ao redor. No setor que fiscaliza isso, o processo chega e eles autorizam; não percebem como e onde está sendo construído. A parte mais alta é cheia de prédios, então quem fica depois do prédio está na estufa. Por isso, essas preocupações, na área urbanística, de quem está projetando um empreendimento ou de quem está fiscalizando ainda deixam muito a desejar. Tem muito mais interesse financeiro do que interesse coletivo”, conclui Bruna.

Dayanne Carvalho (bolsista)
Marcilio Costa

comunica@ufs.br


Atualizado em: Ter, 28 de março de 2017, 11:15
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