Qui, 16 de março de 2017, 16:23

O que fazer com seu lixo eletrônico? Pesquisadora propõe modelo de gestão de resíduos
Resultado de tese de doutorado, proposta elabora ‘logística reversa’ para os resíduos eletroeletrônicos

Provavelmente você já deve ter ficado em dúvida sobre como descartar aquele aparelho eletroeletrônico que não lhe serve mais: celular, televisor, bateria. Em Aracaju, por exemplo, não existe uma política definida para a gestão desses resíduos, apesar de existir uma lei que obriga as cidades brasileiras a estabelecerem uma logística reversa para eles.


Atualmente a maior parte dos resíduos eletroeletrônicos é descartada em lixos comuns ou abandonada em assistências técnicas
Atualmente a maior parte dos resíduos eletroeletrônicos é descartada em lixos comuns ou abandonada em assistências técnicas

Foi pensando nisso que Izaclaudia Santana da Cruz, que atualmente é professora de Engenharia Ambiental do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), desenvolveu sua tese de doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Ela propõe um modelo de gestão que, ao invés de dar os aterros e lixões como destino final - e muitas vezes único - para os resíduos eletroeletrônicos (REEEs), pretende que eles sejam reinseridos no mercado, e então, reutilizados. É a esse modelo que se dá o nome de logística reversa.

Em 2010 foi aprovada a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (Lei n. 12305), que estabelece a obrigatoriedade da logística reversa para os REEEs. Izaclaudia explica que a regulamentação foi um incentivo para desenvolver a pesquisa. "Atualmente os resíduos constituem um dos principais problemas ambientais dos centros urbanos e dos parques industriais. Diante disso, o desafio de buscar soluções viáveis torna imprescindível o desenvolvimento de pesquisas científicas voltadas para esse tema", defende.


A regulamentação da gestão dos resíduos sólidos motivou a pesquisa de Izaclaudia Santana
A regulamentação da gestão dos resíduos sólidos motivou a pesquisa de Izaclaudia Santana

A professora complementa que tais iniciativas contribuem para que as universidades tragam inovações científicas que, de forma prática, possam colaborar para amenizar as problemáticas da sociedade e aperfeiçoar a experiência de seus alunos como pesquisadores.

Ainda segundo Izaclaudia, o próximo passo é elaborar neste semestre um documento contendo o plano proposto e entregá-lo na Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema) de Aracaju.

Qual a proposta da pesquisa?

Atualmente a maior parte dos resíduos eletroeletrônicos é descartada em lixos comuns ou abandonada em assistências técnicas mesmo havendo iniciativas isoladas por parte de recicladoras e através de pontos de coleta em alguns locais da cidade. Segundo a nova proposta, seria criada uma cadeia na qual todos os agentes que participam do ciclo de fabricação, venda consumo e descarte – no caso, fabricante, distribuidora, varejista, assistência técnica e recicladora – estejam interligados.

O consumidor teria a opção de deixar o produto em ecopontos - que podem estar localizados nas assistências técnicas - ou entrar em contato com recicladoras para que façam a coleta em sua própria residência ou estabelecimento comercial, a depender do volume de REEEs.

Como incentivo à devolução, o consumidor receberia um desconto na próxima compra ou acúmulo de pontos que poderiam ser trocados por uma nova mercadoria. O custo da logística ficaria dividido entre os agentes da cadeia que possuem responsabilidade sobre o destino correto do produto.

Ainda seria desenvolvido um software e um aplicativo para auxiliar o processo que ficaria sob a responsabilidade do poder público, através da Sema.


Como funcionaria a gestão de resíduos proposta por Izaclaudia
Como funcionaria a gestão de resíduos proposta por Izaclaudia

Importância social

Roberto Rodrigues de Souza é professor do Departamento de Engenharia Química e orientador da tese de Izaclaudia. Segundo ele, o modelo de gestão baseado na logística reversa é importante não só para a cidade, que verá seus resíduos tratados de maneira apropriada, mas para a universidade, que tem a chance de mostrar seu trabalho em prol da sociedade através de pesquisas desenvolvidas nos programas de mestrado e doutorado.

Roberto Rodrigues diz que ainda se pensa muito pouco em termos de reuso em Aracaju, pois muitas vezes o cidadão comum envia seu produto para a assistência técnica e deixa de buscá-lo, e então o produto é enviado para aterros ou lixões.

"A ideia é que o produto retorne e só em último caso seja destinado aos aterros sanitários. A proposta seria que Aracaju instalasse ecopontos, onde esses produtos seriam coletados, evitando que as pessoas descartem lixos eletroeletônicos aleatoriamente", explica.


Roberto Rodrigues: Programa de Pós-graduação pretende criar fórum sobre resíduos sólidos (Foto: Schirlene Reis/Ascom)
Roberto Rodrigues: Programa de Pós-graduação pretende criar fórum sobre resíduos sólidos (Foto: Schirlene Reis/Ascom)

O professor explica que apesar de existir uma política nacional para os REEEs, cada município deve ter sua estratégia a respeito do destino desses resíduos. Diz também que, junto ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema), pensa na criação de um fórum sobre resíduos sólidos para que essas questões sejam ainda mais debatidas.

"A intenção é que tanto os gestores de Aracaju quanto de outros lugares possam contribuir também com suas ideias e ao mesmo tempo criamos uma consciência ambiental, caso essas discussões cheguem às escolas", finaliza Roberto.

Secretaria Municipal de Meio Ambiente

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Aracaju (Sema) não possui uma política própria em relação aos resíduos eletroeletrônicos, afirma a analista ambiental da Sema, Carla Zoaid. Ela explica que o órgão segue o que é proposto pela Política Nacional de Resíduos Sólidos que determina os parâmetros para o estabelecimento de um sistema de gestão integrado e o gerenciamento ambientalmente adequado de resíduos sólidos.

Além disso, a lei também prevê a organização de mecanismos e procedimentos que garantam à sociedade informações e participação nos processos de formulação, implementação e avaliação das políticas públicas relacionadas aos resíduos sólidos.

Carla Zoaid conta que em Aracaju existem pontos de coleta em shoppings ou mesmo na própria secretaria, que tem parceria com a Eco TI Logística reversa de eletroeletrônicos, empresa especializada na gestão desses produtos. Além disso, segundo Zoaid, a secretaria possui ações de educação ambiental como palestras e a divulgação desses ecopontos.

Papel da sociedade

De acordo com Izaclaudia, o papel da sociedade é primordial em relação à gestão dos resíduos eletroeletrônicos, pois o plano de logística reversa só é possível quando o consumidor se propõe a destiná-los de maneira adequada.

"O que a sociedade pode fazer é contribuir com esse ciclo, buscando alternativas para destinar os REEEs em pontos de coleta específicos e nunca junto ao resíduo sólido comum", diz. Izaclaudia ainda lembra que em Aracaju existem pontos de coleta nos shoppings, na Secretaria de Meio Ambiente, em alguns outros órgãos públicos, universidades e em empresas de assistências técnicas.

Problemas causados pelos REEEs

Os transtornos causados pelo descarte inapropriado de resíduos eletroeletrônicos são graves. Produtos como baterias de celulares e laptops contêm cloreto de amônio, que se inalado acumula-se no organismo e pode provocar asfixia. Produtos como computador, monitor e televisão de tela plana contêm mercúrio em sua composição, podendo causar problemas de estômago, distúrbios renais e neurológicos.

Outro problema, segundo a pesquisa realizada por Izaclaudia Santana, é o tempo de vida dos resíduos. Em Aracaju, por exemplo, os materiais mais descartados (46%) pertencem à linha verde, como computadores, acessórios de informática, tablets, smartphones, telefones, condicionadores de ar, laptops e desktop. O tempo de vida desses equipamentos no meio ambiente pode variar de 2 a 5 anos.

Em segundo lugar (20%), estão resíduos das linhas marrom e verde como monitores, computadores, televisores, laptops, equipamentos de áudio, filmadoras e equipamentos de DVD, Blu-Ray e VHS. O tempo de vida de alguns produtos da linha marrom, após os descarte, pode variar de 5 a 13 anos.

Guilherme Almeida (bolsista)
Marcilio Costa
comunica@ufs.br


Atualizado em: Ter, 28 de março de 2017, 10:51
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