Seg, 17 de abril de 2017, 17:26

Automação na triagem de malas nos aeroportos pretende reduzir transtornos a passageiros e trabalhadores
Sistema de elevação a vácuo auxiliaria funcionários no manuseio das bagagens

Uma das preocupações mais recorrentes de pessoas que precisam, constantemente, embarcar em um avião é saber se a sua mala chegará ao destino em perfeitas condições e sem nenhum desvio de percurso. No aeroporto de Aracaju, cerca de 115 mil passageiros fazem mensalmente os trajetos de chegada e saída da capital em variadas companhias aéreas. No entanto, o complexo aeroportuário, que conta com uma equipe de mais de mil funcionários responsáveis por manter o fluxo constante, reflete a realidade da maioria dos aeroportos do Brasil: o sistema de triagem – carga e descarga de malas – ainda é feito de maneira manual e rudimentar.

Esse sistema gera consequências para as bagagens dos milhares de passageiros que precisam utilizar o serviço. Não são poucas as reclamações que chegam aos setores, sobre malas que tiveram rodinhas quebradas ou sofreram alguma outra avaria devido ao descuidado na hora de manusear e transportar a bagagem.


Esforço exigido para o manuseio das bagagens no setor de triagem (Foto: autores da pesquisa)
Esforço exigido para o manuseio das bagagens no setor de triagem (Foto: autores da pesquisa)

Foi como passageiro que Luciano Fernandes Monteiro, professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Sergipe, percebeu que não era o único a ter problemas com sua mala. A observação do problema – que não era pontual, mas recorrente – despertou no pesquisador o desejo de saber qual era sua causa para, a partir daí, pensar em uma solução viável para diminuir o número de recorrências no setor de reclamação.


Professor Luciano Monteiro: sistema pretende reduzir danos ao trabalhador e falhas na triagem das malas (Foto: Adilson Andrade/Ascom)
Professor Luciano Monteiro: sistema pretende reduzir danos ao trabalhador e falhas na triagem das malas (Foto: Adilson Andrade/Ascom)

Junto aos alunos José Wendel dos Santos e Jéssica Cardoso Melo Monteiro, o professor resolveu fazer um estudo de caso no aeroporto de Aracaju para entender quais fatores eram determinantes para as avarias sofridas pelas malas nos processos de carga e descarga. Os resultados serviram para o desenvolvimento de um produto com traços inéditos que automatiza esse processo e diminui os riscos de problemas do trabalhador que lida com esse setor.

A operacionalização do processo funcionaria através de uma máquina equipada com um sistema de elevação a vácuo das malas: o manipulador ergueria as bagagens de um local e faria o transporte para o destino final. A estrutura leve e compacta permitiria que ela fosse acoplada em qualquer superfície, facilitando o trabalho, e como o processo seria automatizado, o trabalhador correria menos risco de desenvolver problemas de saúde, como lombalgias. A automatização da triagem aumentaria também a produtividade e aceleraria o processo.


José Wendel dos Santos é um dos estudantes que desenvolveu a pesquisa (Foto: Adilson Andrade/Ascom)
José Wendel dos Santos é um dos estudantes que desenvolveu a pesquisa (Foto: Adilson Andrade/Ascom)

O professor explica que o produto foi pensado também para que os trabalhadores não sofressem tanto com o peso das malas. “A proposta é retirar a mala do aeroporto sem trazer maiores consequências para o trabalhador, porque também tem toda uma estrutura de análise ergonômica do trabalho: a forma como ele pega a mala, o peso, o deslocamento de um lugar para outro; nesse deslocamento ele pode sofrer alguma lesão na coluna e outros problemas relacionados com esse tipo de atividade”.

Os resultados finais obtidos pelo professor e seus alunos foram entregues a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), que ajudaram no acesso às áreas do aeroporto para a realização da pesquisa.

Funcionamento

A tecnologia utilizada para a viabilidade do produto não é nova no mercado, mas a ideia conta com traços peculiares que a torna exclusiva. “Pensamos em um dispositivo que fosse flexível, que pudesse ser acoplado no reboque do carro que transporta as malas para a aeronave e que realiza o trabalho inverso”, explica Wendel dos Santos, um dos autores do projeto.


Proposta: dispositivo controlável 'suga' e faz o transporte da bagagem (Imagem: autores da pesquisa)
Proposta: dispositivo controlável 'suga' e faz o transporte da bagagem (Imagem: autores da pesquisa)

Esse processo eliminaria a triagem manual, setor em que o trabalhador sofre a sobrecarga de peso rotineira nos processos de carregamento de bagagem. “Fizemos a mensuração da sobrecarga na coluna vertebral e identificamos que o trabalhador sofre, ao manusear a bagagem, uma compressão na região lombar de 3.905 newtons - estudos mostram que o limite aceitável é de 3.400, então é um peso razoável”, conta.

O produto pode ser encarado como uma adaptação de projetos que já existem em outros ramos da engenharia, como é o caso de maquinários que transportam cargas enormes no setor da construção civil. Um equipamento semelhante também já existe e está em funcionamento em aeroportos fora do Brasil, mas é fixo em uma sala.


Setor de triagem de um aeroporto (Foto: Infraero)
Setor de triagem de um aeroporto (Foto: Infraero)

O diferencial do produto desenvolvido por Luciano Fernandes e seus alunos é que ele é móvel, ou seja, pode fazer o caminho da sala de triagem para a aeronave e vice-versa, sem exigir do trabalhador o manuseio das bagagens. O aluno diz que “é um equipamento que utiliza a tecnologia de suspensão: a mala é sugada e o trabalhador não precisa desprender uma sobrecarga de força de trabalho”.


Danos no manuseio das bagagens são motivo de preocupação dos passageiros (Foto: Infraero)
Danos no manuseio das bagagens são motivo de preocupação dos passageiros (Foto: Infraero)

Saúde do trabalhador

A análise ergonômica do trabalho está preocupada em detectar e solucionar problemas de desconfortos no ambiente de trabalho, que podem envolver temperaturas em que o trabalhador está submetido, posturas inadequadas, excesso de cargas, entre outros.

A primeira fase do trabalho, desenvolvida por Jéssica Cardoso, foi a mola propulsora que desencadeou a ideia posteriormente desenvolvida por José Wendel. No projeto, Jéssica, sob a orientação do professor Luciano, pontuou quais eram os principais problemas sofridos pelos trabalhadores do aeroporto da capital.

Dentre eles estão a temperatura alta - constante alvo de reclamações –, o ruído das aeronaves e fatores biomecânicos – entre eles, a postura do trabalhador na hora do carregamento das malas, alvo da pesquisa. Todos esses fatores podem causar estresse ao trabalhador e conduzi-lo ao erro na hora do despache das bagagens.

Ronaldo Gomes (bolsista)
Marcilio Costa

comunica@ufs.br


Atualizado em: Seg, 17 de abril de 2017, 18:09
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