Seg, 27 de março de 2017, 14:07

Grupo de pesquisa inicia estudo sobre transporte público de Aracaju
Primeiros resultados apontam para a má distribuição das linhas

Todos os dias pessoas das mais variadas regiões de Aracaju utilizam o serviço de transporte público para se locomover na cidade. São milhares de passageiros entrando e saindo de ônibus, indo e voltando do trabalho, fazendo baldeação nos terminais de integração e, não diferente de outras capitais brasileiras, enfrentando o trânsito para ter acesso aos serviços de educação, saúde e lazer.


Núcleo de Estudos sobre Transportes (Netrans) desenvolve pesquisas referentes aos modais do transporte em Aracaju (Foto: Márcio Santana/AscomUFS)
Núcleo de Estudos sobre Transportes (Netrans) desenvolve pesquisas referentes aos modais do transporte em Aracaju (Foto: Márcio Santana/AscomUFS)

A mobilidade urbana, responsável pela democratização do tráfego nas ruas e avenidas, é a pretensão que esbarra no desafio de manter o fluxo do transporte coletivo na cidade de Aracaju funcionando direito: a má distribuição das linhas de ônibus nos bairros da capital sergipana foi um dos resultados apontados pela pesquisa que está em andamento e almeja entender os principais problemas referentes ao transporte coletivo na cidade.

A afirmativa foi uma das respostas que Nelson Fernandes, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Sergipe, encontrou para as muitas perguntas surgidas quando começou a coordenar o Núcleo de Estudos sobre Transportes (Netrans), pretendendo estudar os mais variados modais do transporte em Aracaju. O núcleo reúne alunos da universidade em projetos de iniciação científica que desenvolvem pesquisas sobre os mais variados transportes na capital.

“Nós focamos nesse setor estrangulado com muitos gargalos em Aracaju, que há uma demanda muito grande por investimento e cria perspectivas de pesquisa interessantes e necessárias”, conta o professor. “Tentamos de alguma maneira dar uma contribuição não só dentro da universidade, mas para embasar o planejamento [do plano de mobilidade], as políticas públicas”.


Professor Nelson Fernandes: "Olhamos o que está errado e o que se pode fazer, buscando medidas concretas" (Foto: Schirlene Reis/AscomUFS)
Professor Nelson Fernandes: "Olhamos o que está errado e o que se pode fazer, buscando medidas concretas" (Foto: Schirlene Reis/AscomUFS)

E as políticas públicas demandadas não são poucas. Sandoval Júnior, estudante de licenciatura em Geografia da UFS, é um dos orientandos do professor Nelson que se debruçam sobre o caso do transporte coletivo em Aracaju e de como esse transporte é a principal ferramenta de mobilidade urbana e acessibilidade da população aos serviços de consumo coletivo, como hospitais, escolas, parques, entre outros.

A qualidade desse transporte deve ser atribuída ao Estado, o qual, segundo Sandoval, não cumpre bem o papel e torna desigual o acesso a esse transporte e serviços. “Vemos trabalhadores levando um número x de horas para se locomover de casa para o trabalho; o mesmo tempo para fazer o caminho inverso. Imagine então esse mesmo trabalhador levando uma hora ou mais para buscar atendimento em posto de saúde ou algum tipo de lazer?”, questiona.

Apesar da competência duvidável do serviço oferecido e da desigualdade geográfica de acesso – moradores da zona sul não costumam sofrer tanto com os longos intervalos entre um ônibus e outro – há algumas medidas que promovem o avanço dessa mobilidade: o uso do cartão de vale transporte, a reforma dos terminais de integração e a renovação parcial das frotas.

Obstáculos

Não são poucos os obstáculos enfrentados pelo transporte – seja de qualquer tipo – e eles não são particularidades de Sergipe, pois atingem todo o país. Um deles é que historicamente, segundo Nelson, se privilegiou o transporte individual, causando uma grande carência no serviço prestado pelo transporte público.


Foram realizas entrevistas com a população que utiliza esse serviço para que os resultados sejam mais elaborados e completos (Foto: Márcio Santana/AscomUFS)
Foram realizas entrevistas com a população que utiliza esse serviço para que os resultados sejam mais elaborados e completos (Foto: Márcio Santana/AscomUFS)

Essa carência causa uma reação em cadeia: com o serviço de baixa qualidade do transporte coletivo, mais pessoas optam pelo transporte individual, que consequentemente lotam as ruas e avenidas com carros, impossibilitando o fluxo do trânsito e provocam problemas de mobilidade urbana.

Embora esses problemas sejam sentidos por toda a população das mais variadas zonas das cidades, os apontamentos feitos pelo professor Nelson mostram que a lesão é mais aparente nas zonas periféricas, onde residem os grupos de menor poder aquisitivo. “É importante que haja um planejamento e políticas públicas para fomentar o transporte coletivo e a mobilidade urbana em regiões periféricas, sobretudo para atender demandas de força de trabalho”, afirma.

Durante sua pesquisa, Sandoval Júnior esbarrou no problema da desigualdade do acesso às linhas de ônibus entre as zonas da capital. Ele aponta que os moradores da zona sul não precisam esperar tanto pelo serviço quanto os de áreas mais distantes da cidade.

Para chegar a essas conclusões, Sandoval busca as empresas que oferecem o serviço para ver como estão os números de ônibus em circulação e quantas pessoas esse serviço atende. “Aí é onde vemos a diferença entre as frotas disponíveis para os bairros mais e menos privilegiados”. Também foram realizas entrevistas com a população que utiliza esse serviço para que os resultados sejam mais elaborados e completos.

Núcleo de Estudos sobre Transportes

Criado em 2016, o Núcleo de Estudos sobre Transportes (Netrans) desenvolve pesquisas referentes aos modais do transporte em Aracaju. Sob temas específicos, os alunos exploram as problemáticas e, propositivamente, valoram o trabalho que foi gestado ao longo de meses.


Sandoval Júnior, estudante de licenciatura em Geografia da UFS (Foto: Adilson Andrade/AscomUFS)
Sandoval Júnior, estudante de licenciatura em Geografia da UFS (Foto: Adilson Andrade/AscomUFS)

Os modais alcançam os mais variados nichos do assunto geral. Neste ano, as pesquisas estão focadas nas Obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) SE na BR-101, da aluna Fabiana dos Santos; no Transporte aéreo de cargas em Aracaju, do aluno José Rosivaldo; na Educação e Trânsito em Aracaju, da aluna Cristiane Fátima Pferl; nas Estratégias competitivas do terminal marítimo Inácio Barbosa, do aluno Ronald Santos Pereira; e nas questões voltadas para o transporte público de Aracaju, do aluno Sandoval Júnior.

O Núcleo ergue estruturas sobre a orientação do professor Nelson Fernandes, que trabalha com transportes há mais de dez anos. “Nós olhamos o que está errado e o que se pode fazer, buscando medidas concretas”, afirma. O trabalho continuado é consequência da complexidade do tema, cujos modais convergem em uma mesma direção. “Quando eu percebo que ainda há pontos a serem avançados, que não foram contemplados na pesquisa anterior, a gente retoma”.

O desenvolvimento regional e nacional é a perspectiva geral que move o trabalho, além do investimento em infraestrutura que, consequentemente, aumentará a fluidez e a geração de empregos e renda. “Especialmente no transporte público a gente tem alguns objetivos para trabalhar a produção do espaço urbano, as desigualdades dessa estrutura fragmentada e injusta, e como há uma pressão muito grande pela mobilidade, especialmente nos bairros de áreas periféricas, onde essa disponibilidade de equipamentos públicos é rarefeita”, conta Nelson.

As pesquisas desenvolvidas pelo professor e seus orientandos são propositivas; além de terem um objeto de críticas, eles propõem soluções para o problema. A atenção do professor é para que os alunos apontem caminhos para a melhoria da problemática estudada.

Ronaldo Gomes (bolsista)
Marcilio Costa
comunica@ufs.br


Atualizado em: Ter, 28 de março de 2017, 11:14
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